Com ''Dragão Vermelho'', em estréia nacional a partir de hoje no país (veja a programação de cinema na página 2), o cinema produz em 16 anos a quarta aparição do psiquiatra-psicopata Hannibal Lecter, apelidado ''O Canibal''. Mas o sofisticado serial killer nem sempre teve a feição sorridente do galês Sir Anthony Hopkins. Em 1986, na estréia do tenebroso personagem, o diretor Michael Mann apresentava o Dr. Lecter ao público na pele do ator Brian Cox no perturbador, eficiente ''thriller'' batizado no Brasil como ''Caçador de Assassinos'' (Manhunter), a primeira versão deste ''Red Dragon'' agora em lançamento brasileiro e mundial. Mas foi mesmo com Hopkins, primeiro há dez anos, em ''O Silêncio dos Inocentes'', e mais recentemente no barroco e vazio ''Hannibal'' de Ridley Scott, que fama e status de ícone popular chegaram para o criminoso demoníaco criado em 1981 pela mente febril do escritor Thomas Harris.
Depois da justificada euforia proporcionada pelo irretocável filme de Jonathan Demme e pela decepção geral causada pelos excessos contorcionistas da injusta continuação assinada há dois anos por Ridley Scott, a grande dúvida acerca desta nova incursão pelos domínios da gastronomia de Lecter estava em como ''Dragão Vermelho'' se colocaria qualitativamente em relação a ''O Silêncio...'' e a ''Hannibal''. Sem mais preâmbulos: o prólogo da história, ou se quiserem, a prequela, fica a meio caminho entre um e outro em termos de acertos e interesse. Sem a magnitude e o impacto do primeiro, mas felizmente sem cair na indignidade e no baixo nível do segundo, ''Red Dragon'' é um filme medianamente correto, que não aborrece e nem entusiasma. É satisfatório embora desnecessário, e isso é até mais do que se poderia esperar de um argumento praticamente esgotado e de um diretor - Brett Rattner, especializado em comédias ligeiras - até aqui sem qualquer intimidade com o gênero.
O agente do FBI Bill Graham (Edward Norton) conhece muito bem o dr. Hannibal Lecter. Depois de trabalhar com ele durante a investigação de alguns assassinatos cometidos por um psicopata conhecido como ''Chesapeake Ripper'', o caso se esclareceu quando Graham soube que o assassino e Lecter eram a mesma pessoa. Este tenta matar Graham, que acaba prendendo e trancando Lecter numa instituição para doentes mentais. Três anos mais tarde, já fora do FBI, Jack é chamado pelo ex-chefe Jack Crawford ( Harvey Keitel) para que investigue uma série de terríveis asassinatos cometidos em noites de lua cheia. Para poder se aproximar do novo serial killer, que se auto-intitula ''Tooth Fairy'', Graham vai ter que pedir ajuda ao dr. Lecter, por coincidência a pessoa que mais teme no mundo.
''Dragão Vermelho'', provavelmente a mais fiel adaptação da obra de Harris para o cinema, é um filme resistente que evidencia um equilibrado trabalho em equipe, em que todos parecem empenhados em entregar um resultado final livre de extravagâncias e assumidamente o mais próximo possível de ''O Silêncio dos Inocentes''. Mesmo que este próximo seja distante, as boas interpretações de um elenco de luxo - Ralph Fiennes vai se firmando como especialista em personagens obscuros e torturados psicologicamente: aguardem o ''Spider'' de David Cronemberg -, o adequado manejo do ritmo narrativo e fundamentalmente a ausência de maiores pretensões fazem de ''Dragão Vermelho'' um entretenimento aceitável e portanto assistível. Mas jamais memorável.

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