São Paulo, 17 (AE) - O público de "A Praia" pode encarar o filme, que estréia amanhã (18) em 250 cinemas do País, sob dois pontos de vista. O primeiro é o do admirador de cinema, que guarda boas recordações das empreitadas do diretor inglês Danny Boyle (de Cova Rasa, Trainspotting - Sem Limites e Por uma Vida menos Ordinária) e não se deixou intimidar pela maciça campanha publicitária calcada na imagem de Leonardo DiCaprio. O outro tende a ser adolescente e feminino. É o do fã incondicional do astro de "Titanic".
Pois, surpresa, a produção não chega a ser só para o segundo público. Há cenas bem-humoradas, belas paisagens, alguma ação e uma interessante ambientação na Tailândia - exagerada, fantasiosa, mas ainda assim interessante. Há também vestígios do estilo provocante de Boyle. Mas o público que não se engane. Elaborando sequências inteiras para promover DiCaprio, o diretor parece ter abraçado de vez a receita hollywoodiana. Seu filme não é para ser levado a sério.
Baseado no livro homônimo de Alex Garland, "A Praia" mostra a sede de aventuras de um jovem, Richard (DiCaprio), que troca o conforto de sua vida nos Estados Unidos por uma viagem ao sudeste da ásia. Ele chega a beber sangue de cobra para tentar encontrar algo em sua vida que lhe dê uma identidade, e o faça sentir-se especial. Num albergue de segunda categoria, conhece o inglês Daffy (Robert Carlyle, de Trainspotting e Ou tudo ou nada), um viajante paranóico que descreve um lugar paradisíaco. Tão maravilhoso e isolado, com areias tão brancas que podem transformar sua vida por completo.
Daffy se mata, mas antes deixa um mapa com as indicações do lugar secreto. E lá se vai Richard, com um casal que mal conhece, os franceses Françoise e Etienne (Virginie Ledoyen e Guillaume Canet). Quando encontram a tal praia, os três aderem a uma comunidade secreta de viajantes. Todos são jovens, divertidos e bonitos. Querem manter-se com seus pés de maconha, bem longe da civilização. São capazes de matar por isso.
O melhor a fazer é abstrair. Deixar de lado algumas obviedades e falhas de roteiro. A maior delas talvez seja a idealização de um lugar tão maravilhoso a ponto de batizar o filme. O diretor a justifica como uma metáfora. O jovem de hoje, oprimido, estaria em busca de alternativas para a vida pasteurizada, previsível, apesar da enxurrada de e-mails e celulares. Leonardo DiCaprio também anda orgulhoso do tema. "A Praia é um grande filme para a minha geração, pois hoje tudo parece ser pré-digerido, pré-embalado e pré-pensado para nós", disse à reportagem.
Seria desperdício procurar esse sentido no filme, cuja história tem a consistência de gelatina. Dá até para lembrar vagamente do tema, mas o melhor é relaxar e sentir-se um companheiro da viagem, conhecendo lugares e culturas exóticas, visitando uma comunidade idílica. Ou rir das passagens divertidas, como na que Richard descreve toda sua bravura para matar um tubarão (corta para as cenas de seu rosto desesperado, matando o pequeno animal quase sem querer). Ou da turma da ilha, que ironicamente não abre mão de seu game boy ou do estojo de maquiagem. A violência idealizada para amarrar a história com uma certa dose de reflexão não convence ninguém. Censura - "A Praia" estreou no fim de semana passado nos Estados Unidos. Desapontou os produtores, que esperavam um faturamento superior aos US$ 15,2 milhões de bilheteria obtidos. Foi apenas o segundo filme mais visto no país, atrás de "Scream 3" (sequência de Pânico). No Brasil, a Fox está investindo pesado no lançamento. Mas recebeu uma má notícia.
A naturalidade no uso de drogas e uma dose de sexo livre
que fazem a alegria dos personagens, levou o Ministério da Justiça a determinar a idade mínima de 18 anos para o filme. O que vai terminar por deixar do lado de fora do cinema boa parte do público-alvo da produção. Algumas adolescentes terão de esperar o filme chegar às locadoras. Vem aí um campeão de aluguel. Leo - Finalmente, vamos falar dele. As garotas que conseguirem não ser barradas vão adorar ver os closes em DiCaprio, suas cenas sem camisa e o breve ensaio que faz dirigindo-se para a câmera, sozinho em seu quarto. Elas também vão gostar do lado "humano" do herói (Richard revolta-se quando percebe que errou
o que acontece com frequência) e até sentir compaixão ao vê-lo rejeitado. Por pouco tempo, é claro.
DiCaprio é um ator competente, não merece ficar estigmatizado por "Titanic". Desde pequeno mostrou seu talento em filmes como "Gilbert Grape - Aprendiz de Feiticeiro" (que lhe valeu uma indicação para o Oscar de coadjuvante) e, mais tarde, no criativo "Romeu e Julieta". Em "A Praia", o ator mostra força em suas expressões de garoto crescido. Só. Ele ainda precisa de um papel mais desafiador, que não se baseie tanto em seu jovem olhar de sedutor. Difícil vai ser convencer os produtores disso.

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