A ponte de Londres em Londrina
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de janeiro de 2018
Marcos Roman<br>Reportagem Local 

Um romance que tem como cenários pontos conhecidos de Londrina e também da capital inglesa tem conquistado leitores de todo o Brasil e colocado em destaque a obra de uma nova escritora londrinense. Autora da duologia "Pequena Londres" (2016) e "Uma Pequena em Londres" (2017), Maria Angélica Constantino despontou recentemente no mercado literário nacional dentro do gênero que ela mesma classifica como comédia romântica e já comemora o fato de ver suas obras na lista das publicações mais vendidas do site Amazon em duas ocasiões.
"Me deu tarquicardia", resume Maria Angélica sobre a surpresa que teve ao ver seu nome entre os autores mais vendidos do planeta. "O livro Pequena Londres ficou em 20º lugar na categoria ficção em dezembro de 2016. E para um universo de mais de 12 milhões de títulos impressos que o site oferece é algo a ser levado em consideração. Já 'Uma Pequena em Londres' ficou entre os 40 mais vendidos da lista geral do site em setembro de 2017", detalha.
A londrinense que contabiliza mais de 12 mil livros vendidos também foi destaque em dois dos maiores eventos literários do País. "Pequena Londres foi o segundo mais vendido de 70 lançamentos da minha editora (Novo Século) na Bienal Internacional do Livro de São Paulo em 2016. E um dos maiores blogs de romance do Rio de Janeiro, Livros do Coração, elegeu "Uma Pequena em Londres" como o mais aguardado da Bienal do Rio 2017", celebra.
Nascida numa família humilde, Maria Angélica conta que ainda na infância se apaixonou pela arte de contar histórias, um talento que carrega no DNA. "Meu avô materno era um grande contador de histórias, e eu não piscava, na barra das calças dele, ouvindo fascinada até o final. Todo 'causo' parecia real quando saía da boca dele, podia ser o enredo mais bobo que com ele contando criava vida. Já meu pai sempre foi um piadista de mão cheia e tem o dom de transformar um besteirol em música", revela.
O gosto pela escrita foi descoberto na adolescência, quando passou a registrar todas as descobertas típicas da idade em diários que mais tarde foram queimados pela mãe. Após um hiato de anos sem escrever, voltou à prática durante o período em redigiu sua tese de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na área de Administração até tomar coragem para lançar seu primeiro romance em 2016.
A escritora londrinense que atualmente divide seu tempo seu tempo entre as funções de administradora de um frigorífico, escritora, esposa e mãe de dois filhos revela em entrevista à Folha que já começou a escrever seu terceiro livro e fala sobre suas inspirações.

De que forma Londrina está presente em seus livros?
Minha protagonista é londrinense, então aparecem vários lugares, ruas e hábitos daqui. Depois de ler o livro, muitas pessoas vieram me dizer que amaram identificar os pontos da cidade, que visualizar os lugares conhecidos enriqueceu a leitura. Houve uma mulher de Curitiba que fez o marido trazê-la até Londrina, ela anotou os pontos que queria conhecer (Avenida Tiradentes, Rua São João) e ele ainda teve que levá-la para tomar caldo de cana no Igapó. O mocinho do livro é inglês, e no decorrer da história os conflitos culturais ajudam a formar um pano de fundo.
Como você se descobriu escritora?
Aos dez anos de idade iniciei meu primeiro diário. Acredito que, de certa maneira, ali nascia uma escritora. A cada ano fazia um novo, onde relatava minhas descobertas enquanto adolescente que começava a enxergar o mundo de uma forma mais autônoma: minha primeira vez no cinema, minhas incursões pelo centro de Londrina (biblioteca, bosque, Lojas Americanas...) E, em meio às narrativas do cotidiano, vez ou outra, me via criando poesia.
Quais autores influenciaram sua formação literária?
Até a adolescência eu lia Monteiro Lobato, Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado. Mais tarde me apaixonei por Jane Austen. Gosto muito dos livros da Julia Quinn. Me sinto influenciada também pela Francine Rivers. Mas leio de tudo, desde filosofia, psicologia até histórias em quadrinhos, bula de remédio. No momento estou lendo ao mesmo tempo "Os Irmãos Karamázov" de Dostoiévski e "O Conde de Monte Cristo", de Dumas. Na poesia, sou apaixonada por Adélia Prado e na filosofia eu gosto muito do André Comte-Sponville. Sou bem eclética.
Seus livros entraram para a lista dos mais vendidos do Amazon. A que atribui esse sucesso?
Começa pelos meus amigos aqui de Londrina que esgotaram os primeiros livros colocados à venda na Amazon, depois esgotaram também no site da Saraiva e compareceram em peso nos lançamentos, onde autografei mais de 200 livros. O boca a boca em alguns grupos de literatura do Facebook que me divulgam muito ajudaram a impulsionar ainda mais.
Como você cria seus enredos e como procura mexer com a fantasia das pessoas?
Eu me influencio muito por situações que eu vivi ou que pessoas ao meu redor viveram, por situações que me afetaram de alguma forma, para o bem ou para o mal. Escolhas que eu jamais faria, escolhas que eu gostaria de fazer, lugares que gostaria de viver, vidas que gostaria de experimentar. No livro eu posso tudo através dos personagens, até matar, curar, punir, premiar. É como se eu possuísse um anel de Giges e as palavras me dessem o poder de me tornar invisível para o mundo.
Como é seu processo de produção?
Eu trabalho como administradora durante o dia. Na hora do almoço, à noite e aos fins de semana eu leio muito e escrevo. Sempre tenho um livro na bolsa, às vezes carrego inclusive meu Macbook Air que é bem levinho. Então se tiver que esperar em algum lugar, vou esperar na companhia dos livros. Vocês podem correr o risco de me encontrar em algum dos cafés maravilhosos que temos em Londrina lendo ou escrevendo. O cúmulo do absurdo ocorreu em uma missa, não pude evitar (risos), não sei se foi a forma como fui tocada pela homilia, mas de repente me percebi escrevendo no celular.
Como é a relação da sua família com sua obra e com o fato de ser escritora.
No dia a dia eu conto muito com a colaboração deles (o marido e dois filhos). Eles se revezavam para fazer o jantar para me sobrar mais tempo para escrever. Meus maiores apoiadores são eles, acho que eles percebem que os livros me fazem mais feliz.
Quais são seus novos projetos como escritora?
Vem aí "Eu disse que voltava". Foi numa viagem que fiz à Portugal com minha família, onde minha filha se encantou por um garçom de um dos restaurantes das docas em Lisboa. Ela só tinha sete anos e, depois de ser muito bem tratada pelo jovem rapaz, na hora de partir ela disse a ele "daqui dez anos eu volto". Resolvi que essa história precisava ser contada.
Trechos

"Quem começaria a visita turística de uma cidade pelo subúrbio? E quem lá voltaria, mesmo já o tendo visitado? Mas há beleza onde menos se espera! Muitos apressados correm o risco de ignorar riquezas num rápido olhar, mas não era esse o caso em companhia de Juliana Gomes. Foi por esse olhar inusitado que Tom conheceu Londrina." (Maria Angélica Constantino em "Pequena Londres")

"Voltaram ao apartamento, e as crianças vieram correndo para o abraço. Tia Helena veio atrás com Pedrinho no colo fazendo a festa: ele chacoalhava os braços, as pernas e ainda soltava gritinhos. Graças aos contato de Roux, conseguiram trazer todo mundo para Londres em tempo recorde. Tom disse que ela tinha amigos no consulado britânico, em São Paulo. Mas Ju desconfiava que ela tivesse mesmo invadido o sistema.
- Nós temos uma notícia para dar disse Ju. - Tenho dois bebês nesta barriga: um menino e uma menina!" (Maria Angélica Constantino em "Uma Pequena em Londres")
Serviço:
Pequena Londres
Autora: Maria Angélica Constantino
Novo Século Editora/2016
Preço médio: R$ 45,00
Uma Pequena Londres
Autora: Maria Angélica Constantino
Novo Século Editora/2017
Preço médio: R$ 30,00


