Foi você quem batizou o ''Na Boca do Bode''?
Eu fui o ectoplasma da idéia. O Valter Guimarães reunia o pessoal em sua casa desde os anos 6O e, no encontro em que conversaríamos sobre o evento, fomos pesquisar um possível nome na enciclopédia. Aí achei uma imagem de uma boca e juntei com a palavra bode para dar um sentido político para o nome. Naquela época havia uma perspectiva pessimista, uma expectativa negativa sobre a ditadura de que a coisa poderia piorar. Daí o ''Na Boca do Bode'', que queria dizer mais ou menos ''às vésperas do desastre''.

O ''Na Boca do Bode'' juntou muita gente que vinha participando de festivais universitários na época. A música que vocês faziam já se diferenciava da maioria?
O contexto geral era de sambas e marchinhas. Eu tinha umas músicas estranhas, de ritmos quebrados, que fugiam da norma. Mas eram composições espontâneas, intuitivas, não tinha um método para passar para os músicos que iam acompanhar a gente no show. Lembro que a banda contratada, Rainbow, não conseguia acertar nos ensaios. E olhe que minhas músicas eram simples. Imagine o ''Clara Crocodilo'', do Arrigo.

Você lembra de outros fatos pitorescos ocorridos durante os três dias de shows?
No último dia, o Paulo ''Falso Baiana'' (guitarrista de minha banda) não pôde tocar. Ele teve que viajar para São Paulo para responder a um processo na Justiça Militar. O Arrigo também não pôde apresentar o ''Clara Crocodilo'' no último dia. No caso dele, foi o desfalque de um dos músicos, que teve de viajar por causa dos estudos. Eu encontrei o Arrigo deprimido no camarim e o convidei para fazer ''uma entrada'' no meu show durante a música ''Mente Mente''. Tem uma parte dela que fala de ligar o rádio. O Arrigo entraria no palco com um rádio ligado. O legal foi que quando ele entrou, o aparelho estava sintonzado naqueles programas em que uma pessoa oferece uma música para outra. Aquilo estava perfeitamente dentro do espírito da coisa. Foi um dos momentos que deram certo. O ''Na Boca do Bode'' foi um sucesso de público. O Itamar (Assumpção) disse uma vez, anos depois, que foi a primeira vez que ele sentiu que podia levar uma carreira profissional.

O que você preparou para o show de amanhã?
A intenção é recriar o ambiente criativo e descontraído daquela época. Vai ser um show acústico com participação da cantora Gabriela Katai e do guitarrista Tonho Penhasco.

Vocês está com algum projeto musical em curso?
Eu estou com o projeto ''De lá para cá'', que foi aprovado pela Fundação Cultural de Curitiba. É um show que vou apresentar às terças-feiras no Teatro Paiol em datas ainda a serem definidas. O repertório inclui músicas antigas, algumas compostas antes até do ''Na Boca do Bode''. Convidei a cantora Iria Braga e instrumentistas do núcleo de música da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para trabalhar comigo. Será uma mostra de meu trabalho, que é marcado pela parte rítmica, pela divisão de letras e acentuação das palavras. Quero dar atenção especial também para a interação com a platéia.

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