A política de arte vista por artistas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de julho de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Agora que acabou a Copa do Mundo e somos campeões (''todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta''. Ou, ''a cópia do mundo é nossa!''), temos pela frente as eleições para agitar o país. Mais uma vez a classe (?) artística, o pessoal da cultura vai votar, assim parece, sem participação em debates, reuniões, seminários, sem colocar as necessidades que gostariam de ver contempladas.
Ouve-se um aceno daqui, um zum zum zum de lá, mas nada que seja a união de pensamentos e de forças capazes de operacionalizar, minimamente, a sugestão de um programa para o setor, uma vez que a diversidade de interesses é tão discrepante quando o assunto a tratar é arte. Ficamos sempre à mercê da cabeça dos políticos que indicam seus preferidos, sem ouvir as pessoas diretamente ligadas ao meio.
Um dos lugares onde a questão sobre arte tem sido mais debatida - ou melhor, veiculada - é na internet. Chega a causar uma certa saturação a quantidade de e-mails, resenhas eletrônicas, e-groups, sites em que o tema é a inclusão ou não do artista nos circuitos fechados ou oficiais. O video-maker Lucas Bambozzi, escreveu a respeito, no site www.cubobranco.com.br, que ''...Queria ter a paciência e a lucidez de apenas trabalhar, apenas seguir impulsos mas a continuidade disso (o que envolve sobrevivência também) parece sempre atrelada aos mecanismos 'da vez' e aos recursos existentes para gerar novos trabalhos, quem sabe mais ousados, com maior alcance.
Às vezes, penso que seria legal enfrentar isso de frente, de jogar contra, de criar mecanismos (ou trabalhos) que coloquem em xeque exatamente esse círculo vicioso. Mas isso sempre é visto exatamente como mais uma articulação em busca de visibilidade.
Por um outro lado ainda (acho que o erro é achar que existem apenas dois caminhos: o do flerte-jogo-sedução-concessão junto ao mainstream e galeristas e o da prática marginal e deslocada), mas vejo que existem outras boas perspectivas e boas pessoas nesse circuito. Pra não ficar pensando que a cena é um grande teatro de vilões digo que vejo compatibilidades interessantes.''. Ou seja, como levar a produção em frente e, ao mesmo tempo, não deixar-se sucumbir pela camisa-de-força institucional? Diz ele ainda: ''Claro que há vários outros desdobramentos possíveis, aliviantes ou igualmente perversos, segundo o ponto de vista. Falo da exigência de alguma expertise extra por parte do artista, o artista-negociador, o artista-carreirista, o artista- socializador, o artista-acadêmico em busca de títulos de PhD, o artista rico, o artista puxa-saco, o artista-curador (que troca favores com instituições) e por aí vai.''
Em um outro texto, também colhido pela internet, da página da Gazeta do Povo de 11 de junho, o artista plástico Francisco Farias, de Curitiba, em comentário sobre o evento acontecido em Faxinal do Céu, mês passado, coloca que ''Eis o que se diz acerca das artes visuais no Brasil: a década dos 80 foi a década das galerias, a dos 90, a dos curadores, e a atual é a dos especuladores. A pergunta natural: quando chegará a dos artistas?'' E ainda: ''O contato entre os artistas apontou os rumos para a produção de conexões de interpretação mais criativas e reais, que insistem em preservar a diversidade intrínseca das diferentes linguagens artísticas praticadas no Brasil hoje. Pois são associações inusitadas, que partem da percepção de afinidades estéticas de linguagens que, no plano meramente formal, podem parecer muito distanciadas entre si: em suma, não são óbvias. Eventualmente, não são sequer (pré)existentes: pois podem - e devem - ser determinadas pelos próprios artistas, isto é, indicar ou criar outras proximidades antes ausentes ou não-evidentes.'' E profetiza: ''Concretamente, essas 'associações' indicam que no próximo ano poderão surgir no Brasil, agora livres de demandas de galerias e curadores, uma razoável diversidade de trabalhos produzidos em conjunto por diferentes grupos de artistas, que começarão a sedimentar uma rede de diálogos que poderá resultar em artigos, revistas, livros, novas exposições e mesmo ciclos de estudos.''
E, para terminar as citações e comentários, já que não se quer aqui chegar a uma solução, mas desenvolver questões, mais uma delas, vinda por um e-mail anônimo: ''assusto-me com o bando de e-mails do novo grupo... todos COMENTANDO coisas... vamos VIVER as coisas, o que quer que isso signifique...''
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