Arquivo FolhaMirian Paglia Costa: ‘‘Os poemas gritam na gaveta e você os publica’’A jornalista e poeta Mirian Paglia Costa lançou, na quinta-feira à noite, em Londrina, o livro de poesias ‘‘Notícias do Lugar Comum’’, dentro da programação paralela do Festival Internacional de Londrina. O lançamento foi uma homenagem à poeta londrinese, uma das criadoras do festival universitário que deu origem ao FILO.
Para Mirian, o convite para fazer o lançamento em Londrina foi uma alegria. ‘‘A poesia é uma prima pobre das artes, sem muito respaldo no gosto popular. E ter este tratamento tão carinhoso, tão intimista é bom. Estou adorando’’ - diz. Longe de Londrina desde 1974, Mirian visita a cidade pelo menos três vezes por ano - no aniversário dos pais e Natal - mas nunca tem tempo de rever os amigos. ‘‘É isto que espero aqui, uma reunião de amigos’’ - disse horas antes do evento, com sua simplicidade característica.
Depois de 15 anos sem lançar um livro - sua estréia foi com o livro ‘‘Colar de Maravilhas’’, em 1981 -, Mirian assume que ficou um pouco assustada com este, principalmente porque o primeiro teve críticas maravilhosas, inclusive de Carlos Drummond de Andrade. ‘‘Quando se tem um primeiro livro com elogios tão poderosos, tão fortes, você sente que tem que fazer algo à altura no segundo. Mas, ao mesmo tempo, os próprios poemas dão a segurança da emoção. São as suas idéias que estão ali. Se é satisfatório para você, então está bom porque é você que está ali’’ - afirma.
Negócio exigente O período, porém, não significou um hiato na produção poética da londrinense, que continuou escrevendo e muito. Também não foi planejado. ‘‘Foi um período de minhas dúvidas quanto a este negócio de ser um poeta publicado e também de maturação. Além disto, testemunha minha dificuldade de organização’’ - diz. Ela compara um livro a uma exposição de artes plásticas, onde cada poesia é como um quadro em si. ‘‘Mas acredito que tem que haver um alinhamento de uma temática, para que possa ser visto como um todo’’ - esclarece. Poesia, para Mirian, é um negócio exigente. ‘‘Ou sou eu que sou muito exigente com ela, não sei bem’’ - diz.
Segundo ela, isto acaba tornando difícil o trabalho, principalmente porque cada poema é escrito em um momento diferente e não como algo sequencial. Em seu ‘‘Notícias do Lugar Comum’’, Mirian diz que tentou mais de 10 organizações diferentes. ‘‘Acho que esta preocupação é um pouco do travo do jornalismo, onde a primeira frase é que vai determinar a matéria toda. É um pouco da prepotência racional que a gente tem, de querer dominar aquilo embora a poesia se expresse na emoção e seja muito difícil exercer poder sobre ela’’ - analisa.
Mas, para Mirian, chega a hora em que, apesar das dúvidas e da luta pelo controle, os poemas pedem para sair. ‘‘Acho que foi isto que aconteceu com este livro. Eles gritam na gaveta e não adianta tentar falar que quer outra organização. Eles dominam você, que acaba tendo que publicá-los’’. Segundo ela, a receptividade está sendo excelente. ‘‘Foi uma coisa até surpreendente. Recebi telefonemas, cartas, matérias em jornais do Nordeste, Minas, Rio Grande do Sul, todas muito elogiosas. Fiquei ‘muda’ durante 15 anos e o pessoal lembrou do meu trabalho anterior e aceitou muito bem este novo. É nestas horas que a gente vê que, apesar de prima pobre da artes, a poesia ainda tem voz’’ - conta.
Isto a estimulou no projeto de lançar um novo trabalho, talvez já no próximo ano. ‘‘Isto vai me criar de novo um problema de organização, mas tenho materiais relativamente prontos e acho que dá para fazer até 98. Não vou poder esperar 15 anos novamente’’ - brinca.

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