Álvaro de Campos é o autor do célebre ''Tabacaria'', poema de 1928, cujos primeiros versos servem de síntese não só para sua obra, mas para toda a poesia de Fernando Pessoa: ''Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.'' Modernista e futurista, se for lido apenas na superfície, Campos é sobretudo um poeta do nada, um filósofo da existência, para sempre excluído da vida real e em litígio com o mundo. Um dos 72 heterônimos do poeta português Fernando Pessoa, ele se comporta como uma vítima da poesia: faz uma literatura não da vontade, mas do instinto e do impulso. ''A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação'', escreveu.
''A Poesia'', agora lançada no Brasil (Companhia das Letras, 600 págs., R$ 43), reúne toda a produção poética do engenheiro Álvaro de Campos, de 1914 a 1935, além de textos inéditos. Pessoa já havia previsto, ele mesmo, um grande livro só com os poemas de Campos, seu heterônimo mais fluido e contraditório, mas não chegou a realizá-lo. A tarefa coube, só agora, à pesquisadora portuguesa Teresa Rita Lopes. Ela se baseou num projeto, ''Vida e obra do engenheiro'', deixado pelo poeta. ''Optei pelo critério que me impunha essa biografia: o cronológico'', explica. Foi, de fato, uma decisão correta.
Como já assinalou Leyla Perrone-Moisés, uma das figuras mais assíduas entre os estudiosos brasileiros de Pessoa, enquanto Baudelaire portou-se sempre como um combatente, Pessoa foi ''declaradamente um desertor''. Leyla vê Pessoa fazendo par com Dostoievski, o ''homem do subsolo'', para quem toda consciência não passava de uma enfermidade. O discurso de Campos, segundo ela, ''parece fluir da mesma personagem dostoievskiana, que não é criminosa, mas apenas vil''. Ambos estão imobilizados pelo excesso de lucidez. Também para Pessoa, todo Pessoa, ''pensar é estar doente dos olhos''.
Dos três mais célebres heterônimos de Fernando Pessoa - os outros dois são Alberto Caieiro e Ricardo Reis -, Álvaro de Campos, nascido em 15 de outubro de 1890, no Algarve, era o mais novo. Reis, que nasceu em 1887 na Cidade do Porto, era mais velho que o próprio Pessoa, que veio ao mundo no ano seguinte, em Lisboa. Caieiro nasceu um ano depois, em Lisboa também. O ano seguinte ao nascimento de Alberto de Campos, o de 1891, é marcado pelo suicídio de Antero de Quental e pelo nascimento de Mário de Sá-Carneiro. É nessa atmosfera de desencanto e frustração que sua obra surge. Campos se aproxima mais de Caieiro, pela indisciplina e rebeldia, que de Reis. Seus poemas são um falar alto, um tagarelar dissonante, ''como se um parvo estivesse com febre''.
Depois de estudar engenharia mecânica em Glasgow, e já engajado na Marinha, Álvaro de Campos fez uma viagem ao Oriente. Ao retornar a Lisboa, foi colocado ''em disponibilidade''. Os críticos o consideram o poeta ''do excesso'' e o comparam a Walt Whitman. São duas perspectivas que adotam do próprio Campos, que escreveu uma conhecida ''Saudação a Walt Whitman'' e que, em sua ''Ode Triunfal'', diz: ''E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso/ De expressão de todas as minhas sensações.'' Consideram-no ainda um precursor do existencialismo, a vida sempre acima da lógica, idéia assim expressa em ''Passagem das Horas'': ''Sentir tudo de todas as maneiras/ Ter todas as opiniões/ Ser sincero contradizendo-se a cada minuto/ Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito.'' Alguns críticos ainda, talvez estimulados por um poema como Marinetti, ''Acadêmico'', insistirão na influência do líder do futurismo italiano na obra de Campos; mas o futurismo se caracteriza pela objetividade e pela eliminação dos sentimentos - e não é bem isso o que se encontra em seus poemas.
Num apontamento solto, com muito mais autoridade, Ricardo Reis escreve: ''É o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. São um extravasar da emoção. A idéia serve a emoção, não a domina.'' Reis acredita que as palavras contêm tanto idéias quanto emoções. Mesmo na prosa científica, o lado emotivo entra em ação. Assim também, mesmo a exclamação mais emotiva implica, sempre, numa idéia.
De todo modo, a poesia deve se caracterizar pela estranheza. ''Que esse processo de fazer arte cause estranheza não admira; o que admira é que haja coisa alguma que não cause estranheza'', ele reflete. ''Nem sei bem se sou eu quem em mim sente'', escreveu Campos num poema.
Em conhecida carta ao ''Diário de Notícias'', Álvaro de Campos afirma: ''Sou eu, apenas eu, preocupado apenas comigo e com minhas sensações.'' Campos é, ainda assim, um poeta preocupado com as lutas de escola, em meio às quais tenta traçar seu espaço próprio e estreito. Em ''Tabacaria'', todos os pensamentos do poeta se diluem quando ele vê um certo Esteves que, guardando o troco no bolso das calças, sai de uma loja de cigarros. É o real que, interpondo-se a seus devaneios, esfacela tanto a imaginação quanto as palavras. ''De resto, nada em mim é certo e está/ De acordo comigo próprio. As horas belas/ São as dos outros ou as que não há'', Campos escreveu.
Em Psiquetipia, ele medita: ''Símbolos. Tudo símbolos.../ Se calhar, tudo é símbolos.../ Serás tu um símbolo também?'' Preso num alçapão no qual palavras e idéias imaginadas se entrelaçam, Álvaro de Campos é o poeta da inacessibilidade do real. E quando o real se impõe, como na ''Tabacaria'', tudo o mais desmorona. Está em ''Apontamento'': ''A minha alma partiu-se como um vaso vazio.'' Ainda assim, nele persiste um rastro da existência, fixado no corpo, que pode trazer um sentido a esse des-existir. Em ''Datilografia'', ele escreve: ''O que há em mim é sobretudo cansaço.'' E ainda: ''Estou tonto,/ Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar.'' A embriaguez espiritual de Campos, poeta de alma partida entre o ''querer ser'' e o ''não ser'', assinala a perspectiva nebulosa e fragmentada que vigora em toda a obra de Fernando Pessoa.
Esse estranhamento, de duas imagens que não se encaixam, se expressa num fato singular: Pessoa ''mata'' Álvaro de Campos no dia 3 de fevereiro de 1935; o próprio Pessoa vem a morrer nove meses depois, no dia 30 de novembro. Contudo, mesmo depois de ''morto'', e nos últimos dias de vida daquele que o gerou, Campos ainda escreveu seis poemas. O primeiro deles, de março de 35, começa assim: ''Sim, está tudo certo./ Está tudo perfeitamente certo./ O pior é que está tudo errado.'' Esses versos ''póstumos'' são a grande novidade trazida nessa edição da ''Poesia''. Com eles, o poeta admite que a poesia nada pode resolver, que se faz só para infernizar. Ou, como escreveu Pessoa: ''Álvaro de Campos é o personagem de uma peça; o que falta é a peça.''
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna ''Leiturinha''

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