Por que você não incluiu as letras de música na antologia?
Hoje, meu coração não bate assim tão forte pela música popular. Na verdade, eu nunca compus. Sempre fiz letras antes e depois as pessoas botavam música. E eu quero cada vez mais isso. Eu estou cada vez mais animado com a poesia que estou fazendo. Me parece que essa antologia é apenas o prelúdio do que vou fazer daqui para frente. Já estou com um livro pronto de poesias inéditas. A minha aventura é a linguagem. A poesia é a minha obsessão. Não quero que ela seja escrava de outro meio, quero que ela brilhe na sua inteireza. Quem quiser beber na minha fonte, que beba. Estou virando um celeiro. Os cantores lêem meus livros, gostam de um e outro poema e resolvem musicar. Eu prefiro assim, quem quiser ir ali no meu silo de estocagem de grãos e escolher um poema, tudo bem. Mas eu quero seguir o caminho da poesia que tangencia outros caminhos. Quando Walter Salles Júnior fez ‘‘Terra Estangeira’’, percebeu que faltava um final dramático para o filme. Aí no set de filmagem, ele cruza com Fernanda Torres e pergunta para ela: ‘‘qual a música da sua vida?’’. Ela não ouviu, e ele berra de novo. Ela responde: ‘‘Vapor Barato’’. Os dois me contaram isso e confessaram que foi minha música e meus versos que permitiram dar um final dramático para o filme. Isso me encanta’’
Há autores que renegam determinada obra da própria trajetória por considerá-la inferior ao restante da produção. No seu caso, ao rever os livros para compor a antologia, você sentiu alguma rejeição por um poema ou outro?
Eu olho para trás com um olho gratificante porque sei que cheguei onde estou, alcançando uma voz e uma dicção, através daquele caminho. O próprio desdobramento da produção de um autor, faz com que ele olhe para o passado com uma perspectiva inusitada. Não renego nenhum dos passos que dei. Nesta antologia, você encontra desde a produção recente até textos da ‘‘Navilouca’’ (revista publicada em 1972 em parceria com Torquato Neto) e do ‘‘Me Segura Qu’eu Vou Dar um Troço’’ (livro de prosa experimental publicado em 1970). Não há por que desprezá-los. Meu passado não me condena. São meus filhotes, gosto deles todos. Agora, eu só não estou com o olhar paralisado no passado. Não me peça coerência, pois não atribuo grande virtude a ela. Nesse ponto eu sou Emersoniano. Esse ‘‘EU’’ já não mais existe, já se esfumou. Tento fazer meus pés similares aos pés de Mercúrio (para os latinos) ou de Hermes (em grego), conforme a tradição, que tem asas nos pés. Por isso não gosto de rótulos, de me prender em escolas aqui ou ali. Nunca me enquadrei na poesia marginal, achava uma bobagem quem se deixava prender nessas malhas. Também nunca fui epígono da poesia concreta. Uma qualidade do meu caminho é a singularidade e o alcance de uma voz própria. E isso não é fácil. Isso é a maturação de um poeta.
Você citou a ‘‘Navilouca’’, que foi publicada numa época em que houve um boom de revistas alternativas de poesia. O Paulo Leminski chegou a escrever um artigo em que dizia que os melhores poetas da década de 70 não eram gente, mas revistas. Você continua habitando as páginas desse gênero de publicação?
Eu uso e abuso desses canais. Sou viciado nessas revistas e jornais. Sempre que sou convidado, dou minha colaboração, desde que eu goste da estética e das idéias, ainda que estas sejam confusas e principalmente se forem confusas. No Paraná mesmo, já participei da ‘‘Medusa’’ (revista editada pelo curitibano Ricardo Corona). Eu não me fecho. O ‘‘Suplemento Literário de Minas Gerais’’ vai trazer um poema inédito meu numa das edições desse mês e a revista ‘‘Cult’’ de agosto vai trazer, além dos poemas, uma grande entrevista.
Você tem dialogado com a nova geração de poetas? Quem você destacaria no panorama atual?
Não me peça para pronunciar. Não entro nessas questões de escolher nomes, poetas novos. Você conhece mata-burro? Eu posso citar nomes da tradição. Sabe de quem eu gosto? Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Esses são os grandes poetas do meu coração.
Você concorda com a tese, que vigora hoje quase como um consenso, de que o tempo dos vanguardas, dos movimentos e dos manifestos está definitivamente encerrado?
Não coincido com essas idéias. Não sou coveiro da história, não posso decretar que acabaram os manifestos, as vanguardas. Não gosto desses decretos. Acabou sim o tempo do manifesto chato, aquela coisa parecendo uma camisa-de-força estética com seus planos estreitos, isso acabou. Mas de repente aparece uma garota e publica um manifesto fantástico, e eu vou ler com vontade e tesão. Da mesma forma, pode aparecer um garoto muito sabido, muito inteligente, e derruba esses castelos feitos na areia. O mundo felizmente não está no juízo final, o mundo não se acabou. Eu sempre vejo as coisas com um olhar pró. Eu não sou uma velha rabugenta e neurótica que vê tudo mais fraco do que os belos anos dourados dela. Eu sou um homem do meu tempo, e vejo sempre o presente impregnado de possibilidades. Na revista ‘‘Veja’’, o repórter perguntou para o Stockhausen o que a vanguarda representava para ele, imaginando que o compositor fosse devastar a idéia de vanguarda histórica. Sabe o que ele respondeu? Ele disse: ‘‘A pergunta está mal colocada. Enquanto eu viver, a palavra vanguarda vai ter sentido no mundo’’.

mockup