Apesar da morte prematura, Renanto Russo não deixou uma lacuna em sua obra tão vasta e intensamente construída nas décadas de 80 e 90. Com letras imensas conseguiu abraçar um público específico e, com seu modo rebelde e frequentes ataques de antipatia, acolheu, ironicamente, uma legião de fãs fascinados pelo seu carisma.
Como vocalista do Legião Urbana, compôs quase que a totalidade das letras dos 11 CDs do grupo, dois deles solo (Equilíbrio Distante e The Stonewall Celebration Concert), em carreira iniciada oficialmente em 1984.
É exatamente esta precisão em cada um de seus trabalhos que vem reabrir aquela antiga polêmica sobre a validade ou não da letra de música como poesia. Pois a imprenssão que se tem é que o processo criativo de Renato Russo era inverso, pois as letras parecem ter luz própria mesmo em harmonia com a sonorização. Ou seja, elas podem ser percebidas além da música. Mas do que letras para serem musicadas, são poemas.
Estas letras têm um significado tão específico que merecem ser avaliadas de maneira especial, no entanto isto deveria ser feito em um trabalho mais elaborado, devido a quantidade de material disponível. É importante que se diga que esta lembrança de Renato Russo, não tem caráter meramente formal recolhido de uma data trágica, mas está comprometida com a trajetória das letras/poemas e delas visa apontar algumas breves direções. Tais direções estão referendadas por obras de outros poetas. Significa que esta poderia ser uma homenagem simples e diferente. Ou um jeito de lembrar do trabalho de Renato, trazendo-o ao lado de alguns poetas expressivos de outras épocas. No entanto, por uma escolha aleatória e até pessoal, foram destacados alguns trechos de letras do poeta pop dos anos 80, mais a título de exemplo.
Impossível esquecer de Via-Láctea. Em trechos como: ‘‘hoje a tristeza não é passageira / hoje fiquei com febre a tarde inteira/ e quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima.../Vem de repente um anjo triste perto de mim.../ não me dê atenção / mas obrigado por pensar em mim’’. Trata-se de um inebriante e melancólico contato com a morte, sobre a qual temos o seguinte: ‘‘Não quero que uma nota de alegria / se cale por meu triste passamento.../ Não derramem por mim nem mesmo uma lágrima / Em pálpebra demente’’. (Lembrança de morrer - Álvares de Azevedo); ‘‘Sem ambições de amor ou de poder/ Nada peço nem quero e-entre nós- ando/ Com uma grande vontade de morrer’’. (Vontade de Morrer - Manuel Bandeira ); ‘‘Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos’’ (Poemas Inconjuntos - Fernando Pessoa). Ou o Livro dos Dias, com a suavidade emergindo diante do desespero agressivo: ‘‘Não esconda a tristeza de mim/ Todos se afastam quando o mundo está errado/ Quando o que temos é um catálago de erros’’. Ele aproxima-se de Augusto dos Anjos em Idealismo: ‘‘Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!/ O amor na Humanidade é uma mentira’’. Ou de Fernando Pessoa em Poemas Inconjuntos: ‘‘Se o mundo é um erro, é um erro de toda gente/ E cada um de nós apenas’’.
Estes textos foram tirados do CD ‘Tempestade’, mas há ainda muita coisa para ser trabalhada. São letras de caráter muito próprio. Renato Russo trouxe estas possibilidades, esta forma de mostrar que poesia não tem tempo e que seu espaço habita na palavra.
Maria Helena de Moura Arias é jornalista e mestranda em Letras-Literatura na UEL.

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