A poesia da voz
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Rafael Ceribelli<BR> Reportagem Local 
Um homem levanta-se e, observado por olhares atentos e curiosos, rasga o silêncio em que está imerso o ambiente escuro. Vinda de cima do palco parcialmente iluminado, a voz do homem ecoa por entre as paredes, em ritmos e tonalidades que causam estranheza àqueles que não estão acostumados a navegar por águas tão profundas. Apenas o som da voz, que neste lugar vale mais do que as palavras, se transforma em um convite para uma jornada em direção ao subconsciente coletivo. Assim se apresenta a polipoesia.
''É quase um momento mágico, porque o público te escuta e você tem que receber aqueles sentimentos que ele te manda, de uma maneira irracional. Existe uma relação muito estreita entre o polipoeta e o público'', explica o poeta, artista e escritor italiano Enzo Minarelli, que lança hoje, dentro da programação do ''1º Seminário Brasileiro de Poéticas Orais'', na UEL, seu primeiro livro com tradução para o português: ''Polipoesia - entre as poéticas da voz no século XX''.
Enzo é professor na Universidade de Bologna e há mais de 20 anos se dedica ao estudo e à divulgação do conceito da Polipoesia por todo o mundo. Com um currículo que conta com mais de 60 obras lançadas e apresentações em vários países da Europa e nos EUA, ele é considerado um dos principais expoentes dessa arte vanguardista, que vislumbra a voz como musa inspiradora. ''Na polipoesia a voz é a rainha'', enfatiza Enzo, explicitando que a diferença dessa arte com a poesia escrita acontece em todos os níveis, desde a criação até sua apresentação. ''Na maioria das vezes os poemas escritos são lidos apenas no silêncio da mente. A polipoesia é um ato público, faz parte dela o poeta surgir como uma espécie de ator, para declamar o texto.''
O organizador do evento na UEL e tradutor do livro de Enzo é Frederico Fernandes, professor do curso de Letras e admirador de longa data dos trabalhos do poeta italiano. ''A polipoesia é um trabalho que está em um diálogo constante com todas as vanguardas do século XX, e que chega como resultado da pesquisa de vários experimentalismos'', explica o professor, que considera essa forma artística como parte de uma raiz cultural da humanidade, podendo ser observada nos xamãs das religiões ancestrais e poetas da Grécia Antiga. ''A sonoridade da polipoesia atinge uma possibilidade de expressão muito maior do que a poética da palavra escrita.''
Apesar da polipoesia conter em sua essência um olhar em direção ao passado - no qual a performance do poeta surge como uma apresentação simples e crua - o professor Fernandes concebe um futuro promissor para essa releitura artística. ''Não tenho dúvida de que o caminho do futuro da poesia passa pela polipoesia, pela internet e pelas mídias digitais'', opina Fernandes, que diz enxergar esse retrato da poesia como sendo mais íntimo de nossos sentimentos humanos. ''A razão da língua é nossa mediadora em relação ao mundo, ao mesmo tempo em que é uma limitadora da expressão. A polipoesia é uma linguagem universal'', completa.
Serviço
- Lançamento do livro 'Polipoesia - entre as poéticas da voz no século XX'
Quando - Hoje às 21h
Onde - Sala de Eventos do CCH (Centro de Ciências Humanas), na UEL
Quanto - Gratuito


