A poesia beatnik nos palcos
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quarta-feira, 09 de novembro de 2011
Nelson Sato <br> Reportagem Local 
As atas de um processo judicial não constituem, a princípio, matéria-prima ideal para se transformar em espetáculo teatral. Foi o que pensou o ator francês François Kahn quando lhe entregaram a cópia de um livro com a transcrição do testemunho do poeta americano beatnik Allen Ginsberg (1926-1997) durante o processo de julgamento de ativistas que ficariam conhecidos como ''Os Sete Chicago'' no final da década de 60.
Para sua surpresa, o texto revelou-se potente em sua intensidade emocional e poética. Logo tratou de adaptá-lo para o teatro. A estreia da montagem, intitulada ''Moloch'', ocorreu em 2001, na cidade de Cremona, na Itália. Amanhã ele mostra o espetáculo em Londrina, onde está desde a semana passada conduzindo uma oficina na Casa de Cultura da UEL. A apresentação será às 20h30 no Teatro do Filo (Rua Cuiabá, 39).
Em formato de monólogo, ''Moloch'' traz François Kahn encenando o duelo verbal do tribunal entre Ginsberg e o procurador que tenta desqualificar o poeta ridicularizando suas práticas religiosas hinduístas e levantando suspeitas sobre sua homossexualidade e relações com drogas ilícitas. ''Faço os dois personagens, além de abrir o espetáculo introduzindo o público ao julgamento dos Sete de Chicago'', assinala o ator, diretor e produtor.
Mas, avisa ele, a peça não se reduz ao confronto retórico: ''É acima de tudo um espetáculo sobre poesia, baseado numa situação dramática construída em torno dos poemas'', diz.
Ele explica que os réus (''Os Sete de Chicago'') eram jovens que protestavam contra a Guerra do Vietnã, o racismo e outras mazelas sociais que afligiam a sociedade americana no final da década de 60. Integravam grupos como os Panteras Negras e o movimento hippie.
Ginsberg depôs como testemunha de defesa em dezembro de 1969. Ao ser atacado moralmente no tribunal, ele se defende com um discurso contundente invertendo uma a uma as insinuações, a ponto de deixar o público todo em pé. Ao final, ele lê fragmentos do célebre poema ''Uivo'', um clássico da geração beat.
O livro que reproduz todo o processo foi publicado em 1971 por Fernanda Pivano. ''Ela foi a embaixatriz da contracultura americana na Europa, especialmente na Itália. Era amiga de Ginsberg e de vários escritores dos anos 50 e 60'', lembra. Khan explica que para fazer a adaptação para o palco, teve que cortar trechos dos autos, por serem muito extensos.
''Conservei os versos iniciais de 'Uivo', além de incluir poemas de juventude do poeta como 'A Maçã Noturna', 'Em Sociedade' e 'Poema de Amor a partir de um tema de Whitman'. Utilizei os poemas na tradução totalmente nova de Ana Teresa Jardim'', acrescenta. Falando português fluentemente, o ator já esteve outras vezes em Londrina - em três ocasiões trouxe espetáculos para o Filo (Festival Internacional de Londrina) e em outra passou uma temporada na cidade trabalhando como diretor do grupo Proteu.
Aos 62 anos, ele já montou vários espetáculos, muitos baseados em obras literárias de autores como Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce. Ele afirma que esta será a primeira apresentação oficial de ''Moloch'' no Brasil, lembrando que no mês passado fez um ensaio aberto na sala de teatro da Universidade de Santa Maria (RS). Na próxima semana, viaja para o Rio de Janeiro e depois retorna a Londrina para desenvolver um novo trabalho com artistas locais.
Serviço:
- Espetáculo 'Moloch / Testemunha: Allen Ginsberg', com François Kan
Quando - Amanhã às 20h30
Onde - Teatro Filo (Rua Cuiabá, 39), em Londrina
Quanto - R$ 10 e R$ 5 (meia para estudantes, professores e servidores da UEL)
Pontos de venda - Casa de Cultura da UEL/Divisão de Artes Cênicas (Av. Duque de Caxias, 3.391) ou na bilheteria do teatro (somente no dia da apresentação, a partir das 18h)
Informações - (43) 3322-1030


