Através do timbre cristalino de Gal Costa é possível passear pelas diversas nuances que marcaram a Música Popular Brasileira nas últimas cinco décadas. A cantora estreou no mercado fonográfico cantando Bossa Nova em 1967, gravou álbuns experimentais e foi musa da Tropicália nos 70, entrou na onda brega que marcou os anos 80 e voltou às raízes na década seguinte. Desde então vinha gravando álbuns burocráticos até lançar em 2011 o aclamado álbum "Recanto". Todas essas fases da carreira da baiana são revividas no aclamado show "Recanto", registrado na íntegra no ano passado e que está sendo lançado em CD duplo e DVD pela gravadora Universal Music.
Recanto é um divisor de águas na carreira de Gal. O espetáculo dirigido por Caetano Veloso recolocou a baiana no posto de diva da canção brasileira. O reencontro da intérprete com a emoção e o prazer de cantar é o maior mérito do novo show, muito mais que o impacto das batidas eletrônicas que permeiam a maioria dos arranjos da setlist do espetáculo e que já haviam sido usadas por Gal em outro discos.
É impossível não se emocionar em diversos momentos do DVD, principalmente ao ver Gal chorar durante o solo de guitarra de Pedro Baby em "Vapor Barato". Além do guitarrista, a cantora é acompanhada por Bruno Di Lullo (baixo, violão e vocal) e Domenico Lancellotti (bateria, MPC 1000 e vocal).
Aos 67 anos, Gal exibe plena forma vocal e mostra todo o poder de seu cristal lapidado misturando funk ("Miami maculelê"), rock ("Divino maravilhoso"), música eletrônica ("Neguinho") e grandes hits de sua carreira, como "Minha voz, minha vida", "Força estranha", "Dom de Iludir", entre outros - a grande maioria de autoria de Caetano Veloso. Os graves e agudos da cantora se encontram na canção "Um dia de domingo", em que a cantora imita o timbre e os tons de Tim Maia, parceiro da baiana na gravação original da música em 1985.
Outro ponto positivo do DVD é a impecável fotografia de Dora Jobim e Gabriela Gastal, que assinam a direção de imagem do trabalho. Com delicadeza ímpar, as diretoras conseguiram captar a essência indie do espetáculo marcado por tons sóbrios e densos, tanto no figurino quanto na iluminação e cenário.
Gravado no Theatro Net Rio, antigo Teatro Tereza Raquel, palco do antológico álbum "Gal Fa-tal", considerado um dos mais importantes registros da MPB, "Recanto" deu a Gal diversos prêmios de melhor disco (2011) e show do ano (2012) e reaproximou a cantora do público jovem. Este é mais grande feito de uma das carreiras mais sólidas do cenário nacional.
Gal já foi considerada pela revista Time uma das dez melhores cantoras do mundo, lotou várias vezes o Carnegie Hall de Nova York (lendário templo americano do jazz) e tem milhares de fãs ao redor do mundo, alguns famosos como a cantora Liza Minelli, que diversas vezes veio dos Estados Unidos para o Brasil exclusivamente para prestigiar as estreias da mais afinada das baianas e que é uma a principal influência de cantoras de várias gerações como Marisa Monte e Tulipa Ruiz.
Em entrevista à FOLHA por e-mail, Gal Costa fala sobre a importância de do disco e do show "Recanto" em sua carreira.

O show "Recanto" vem carregado de uma emoção muito grande que é percebida tanto em você quanto na plateia e isso fica muito evidente no DVD. Por que você acha que esse espetáculo é tão arrebatador?
É um show forte, instigante. Ele foi ganhando forma e ficou belíssimo. É uma representação do que fui, do que eu sou, do que eu serei. São diversas Gals lá no palco se rasgando juntas. O público me comoveu muito durante esse show.

Na estreia do show no ano passado, Caetano discutiu com uma senhora da plateia que estava incomodada com os ruídos dos arranjos do espetáculo. Esse foi um caso isolado ou houve uma certa resistência dos fãs mais tradicionalistas?
Foi um caso isolado, acho que o público tem sido bem respeitoso. No Circo Voador, no começo deste ano, entrei no palco e as pessoas gritaram e aplaudiram muito, foi lindo. Mas não paravam. Então pedi silêncio para começar a apresentação e a plateia respeitou isso até o final.

Você já foi musa da juventude que contestava a ditadura militar nas décadas de 60 e 70 e agora novamente está sendo aclamada pelo público jovem. Como está sendo esse reencontro?
Está sendo maravilhoso. Fico muito feliz com esse reencontro e quero fazer shows para acolher mais garotada ainda.

Você é apontada como a primeira cantora moderna do Brasil. Concorda?
Eu tenho uma influência grande de João Gilberto. Minha maneira de cantar se transformou. E pra mim, João Gilberto é o que há de mais moderno pra época e agora. Eu era apaixonada por ele. Se meu canto é moderno, se deve a grande influência dele.

Ney Matogrosso comentou que acha que a sociedade de hoje está mais careta do que na década de 70. Você também pensa dessa forma?
Se você pensar na sociedade como um todo, ela continua igual. Não sei... acho que o Brasil melhorou muito, se abriram mais para gostar de outras coisas, diferenciadas. Eu acho que melhorou. Não acho que esteja mais ou menos careta que antes.

A sua geração continua muito atuante. Acha que é possível alguém hoje em dia construir uma carreira tão sólida como a sua, a de Caetano, Gil, Bethânia e Chico Buarque?
Só o tempo dirá. Tem muita gente boa da geração pós a nossa.

Você já foi citada pela revista Times como uma das dez melhores cantoras do mundo pela Billboard. Na sua opinião, quais brasileiras também poderiam fazer parte desta lista?
Acho complicado citar nomes. Cada uma tem um valor prá música brasileira.

O que você tem ouvido atualmente? Quais cantoras admira?
Não tenho tido muito tempo de ouvir música atualmente. O último disco que comprei foi de Caetano, no iTunes.

A sua voz é sinônimo de sofisticação, bom gosto e ousadia. Como você cuida dela? Acha que houve mudanças com o passar dos anos? Os agudos continuam vigorosos?
Cuido da minha saúde em geral. Não tenho mais 30 anos e a vida demanda bastante da gente fisicamente. Então eu malho, faço peso, tudo isso com personal trainer. Não quero voltar a ser o que era, mas quero estar bem sempre, sem me enferrujar. Quanto à voz, o tempo só foi bom comigo. Ganhei os graves e mantive os agudos, cantando nas mesmas tonalidades de antes.

Na juventude você imaginava que estaria tão bem fisicamente e vocalmente com quase 70 anos?
Acho que sempre me cuidei para isso!

Há alguns anos você disse ter vontade de gravar somente songbooks em homenagem a grandes autores. Ainda pensa nisso? Quem seriam os homenageados?
Tenho muitos planos já, estou em ebulição para os próximos projetos. Quem sabe isso não acontece. Mas ainda teria que pensar bem sobre.

Muitos de seus fãs reivindicavam um projeto ousado e você nos presenteou com o lindo show Recanto. O que podemos esperar de Gal nos próximos anos? Já tem planejado os novos trabalhos?
Como disse, já consigo vislumbrar um novo disco, mas Recanto ainda tem bastante estrada pela frente.

Existe a possibilidade de trazer o show Recanto a Londrina, no Paraná?
Claro, quero ir para todos os cantos possíveis, incluindo Londrina.

Serviço:
Gal Costa
Recanto ao Vivo
Gravadora - Universal Music
Preço médio - R$ 36 (CD duplo) e R$ 39 (DVD)

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