Os conflitos fazem parte da história da humanidade. Guerras, revoluções, atentados terroristas, como o que esta semana fez mais vítimas em Londres, estão no enredo dos povos. Achar sob os escombros o que resta de humanidade aos personagens perdidos no território da dor é muitas vezes o papel dos correspondentes de guerra. Hoje, na Festa Literária Internacional de Parati (Flip), dois jornalistas que conhecem de perto todos esses horrores levam aos participantes do evento as experiências que trazem na bagagem nem sempre leve do seu ofício. Às 12 horas , o norte-americano Jon Lee Anderson – que cobriu a guerra do Iraque e é autor do livro-reportagem ‘‘A Queda de Bagdᒒ – e o português Pedro Rosa Mendes – que acompanhou de perto a guerra civil em Angola – falam ao público sobre a aventura e a dor de dissecar o lado sangrento das ideologias num debate intitulado ‘‘Zonas de Conflito’’.
  Pedro Rosa Mendes é conhecido no Brasil através do livro ‘‘Baía dos Tigres’’, um relato jornalístico e sensível sobre uma insólita travessia do continente africano. Em 1997, ele cruzou por terra cerca de 10 mil quilômetros, de Luanda a Quelimane, usando como transporte ‘‘restos de caminhão’’, jipes, canoas ou mesmo percorrendo a pé territórios dos quais não tinha certeza se voltaria com vida. A experiência , que durou quatro meses, é definida como um projeto realizado pela ‘‘mais nobre razão de todas: nenhuma em especial’’. Mas o despojamento ético é logo substituído nas primeiras páginas por um vigor que aproxima o trabalho jornalístico da chamada literatura de viagem, com a beleza e a grandeza de um texto de primeira classe.
  ‘‘Baía dos Tigres’’ é fruto de um trabalho de campo que exigiu enormes sacrifícios do autor. Ele não mediu esforços para interpretar a realidade dolorosa da África tomada, há séculos, por invasões, guerras civis e conflitos étnicos. A obra apresenta dados impressionantes , dá conta de que existem cerca de 100 milhões de minas explosivas enterradas em 70 países do mundo, sendo que um décimo deste total está enterrado em Angola. O continente africano, aviltado ao longo do tempo por diferentes colonizações, é mostrado em todo seu valor e toda sua miséria através dos relatos de heróis anônimos e personagens do cotidiano que vivem em condições desumanas. Um deles, por exemplo, usa como próteses – em substituição aos pés detonados por minas – pedaços de bolas de futebol.
  Na semana em que se realizou na Escócia a reunião do G8, grupo que reúne os sete países mais ricos do mundo e mais a Rússia, tendo como ponto crucial da pauta de discussões as dívidas da África para com as nações do Primeiro Mundo, o livro ‘‘Baía dos Tigres’’ é leitura recomendada para que se compreenda as relações que transformaram o continente mais antigo do planeta em território de miséria, doenças e toda sorte de abusos pelos mãos dos mesmos colonizadores que agora decidem o futuro desses povos. O jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes, traz ao público brasileiro uma oportunidade ímpar para este tipo de discussão.
  Mendes trabalha no jornal ‘‘O Público’’, em Lisboa e além de ‘‘Baía dos Tigres’’ é também autor dos textos de ‘‘O Melhor Caf钒 , livro de fotografias de Alfredo Cunha lançado em 1996. Seu relato sobre a travessia do sofrido território africano lhe valeu o Prêmio P.E.N. Clube Internacional. ‘‘Baía dos Tigres’’, publicado no Brasil em 2001, conquistou expressiva repercussão em Portugal e foi lançado também na Espanha, Itália, Alemanha , França e Suíça. A obra, que mistura jornalismo e ficção, é antes de tudo uma primorosa cartografia humana de onde emergem personagens ‘‘no limite da vida’’.


Pedro Rosa Mendes: jornalista português acompanhou de perto a guerra civil em Angola. Em seu livro ‘‘Baía dos Tigres’’ (detalhe), ele realizou primorosa cartografia humana ao interpretar a realidade dolorosa da África

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