A permanência da impermanência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de março de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Se viver é uma arte, como diz o ditado popular, então arte e vida são partes de um mesmo sistema que inclui também a morte e o amor, certo? Ou tudo isto seria a vida, inclusive sendo a morte parte dela? Ou, poderíamos chamar tudo de arte, dependendo de como olhamos a existência? Quem sabe?
Em nossa cultura, o mito da imortalidade é uma obsessão que alimenta nossa fantasia e imaginação, seja na ficção ou na ciência que vê sentido nesta busca. Tornar-se imortal como um Deus, mesmo que o preço disto seja deixar que a vida nos passe despercebida, parece ser a crise que vivemos hoje, que gera a perda de valores. Cabe então perguntar: quem é que ganha com isto?
Por imortais que sejam os deuses, heróis e gênios da humanidade, a vida se faz é no aqui e agora, nas coisas simples do cotidiano que só dependem de nós, de cada um, e que podem ganhar sentido e significado, tornando nossa existência mais fecunda e criativa.
Podemos pensar a integração entre existência e criatividade, ou então, arte e vida a partir do momento em que aceitamos a transitoriedade, a impermanência, o constante estado de mudança a que tudo e todos estão sujeitos. Para isto acontecer, é necessário que o ritmo interno, subjetivo, desejante de cada um esteja harmonizado com o ritmo externo do mundo, que impõe regras, compromissos, prazos e ações concretas à vida. O ego, neste caso, tende a se desmanchar em sentimento cósmico, pois somos parte do todo, mas também somos o todo em cada um.
Para o artista norte americano Robert Smithson (1938-1973), essa condição foi realmente levada a sério. Trabalhando com a idéia de arte em sites specifics (locais específicos) e nonsites (não lugares, ou lugares, materiais ou situações deslocadas de seu contexto específico) suas obras, muitas vezes consistem simplesmente em registros fotográficos ou de textos dos locais escolhidos durante uma caminhada. Pode ser um canteiro de obras ou o estacionamento de um shopping, por exemplo. Em outros trabalhos, o artista encobre uma casa abandonada de terra, ou coloca espelhos na paisagem para refleti-la, o que demostra a relevância que o artista dá à questão do tempo e do espaço, já que o trabalho feito pode não durar mais do que o tempo do clik da foto para registro. Para ele, viver a intensidade que a transitoriedade proporciona parece ter sido uma profecia, já que sua vida foi interrompida precocemente, aos 35 anos, devido a um desastre aéreo, enquanto inspecionava um local em que faria uma intervenção. Aliás, este sentimento em que arte atua no tempo e no espaço do aqui e do agora, colocando questões pertinentes ao nosso contexto cultural contemporâneo, parece ganhar força, cada vez mais, a partir do fim dos anos 50, embora se fale disto há mais tempo.
Resgatar o sentido dos pequenos gestos cotidianos, de um passeio, por menor que seja, tornar o olhar cada dia mais atento, a percepção mais aguçada, talvez seja este o grande sentido da vida... e a função da arte.
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