São Paulo, 13 (AE) - No Brasil, o filme chama-se "A Perda da Inocência", mas no original é "The Loss of Sexual Innocence". A perda da inocência sexual. É um filme de Mike Figgis que está saindo só em vídeo no País, sem passar antes pelos cinemas. Se tivesse estreado nas salas, com certeza seria lançado no circuito de arte. É um filme pequeno, o mais experimental do diretor. Não é para todos os gostos, mas vale uma olhada.
Figgis, que além de cineasta é músico, novamente assina a direção e a concepção da trilha. É um cineasta irregular - sua versão de "The Browning Version" (Nunca Te Amei), é pouco mais que medíocre; "Liebenstraun - Atração Proibida", com seu título que evoca Liszt, decepciona -, mas quando acerta faz filmes como "Justiça Cega", com Richard Gere e Andy Garcia, e "Despedida em Las Vegas", com Nicolas Cage.
"Justiça Cega" é um dos policiais mais eletrizantes do começo dos anos 90, proporcionando à dupla de astros papéis sob medida que ajudaram a consolidar os respectivos mitos de homens sexys. "Despedida em Las Vegas" deu a Cage o Oscar de melhor ator. Foi um daqueles casos de injustiça histórica da academia. Não que ele não estivesse bem. Está - é seu melhor papel, mas quem merecia o prêmio era Elizabeth Shue, realmente maravilhosa.
Na época, especialistas andaram escrevendo que ela muito jovem para receber o prêmio, que a academia só premiava atrizes mais velhas, essas coisas. Logo em seguida Gwyneth Paltrow (por Shakespeare Apaixonado) e Hilary Swank (por Meninos não Choram) vieram desmentir o que parecia axioma. A melhor e mais bela de todas, Elizabeth, não levou. Video - Cinco minutos de "A Perda da Inocência" vão desanimar espectadores ligados em histórias com começo, meio e fim. O filme não oferece nada disso. É mais uma viagem pelos olhos de um menino. Começa e termina no rosto da criança inocente. Entre os extremos rola a história que não é nem pretende ser linear. Julian Sands é o protagonista. Ele aparece quase sempre na estrada (da vida), saltando da selva para o deserto africano e daí para pequenas e grandes cidades.
É cineasta - um documentarista. Viaja com a equipe, captando imagens. Um dos episódios leva-os à Espanha, onde Rossy De Palma, uma das atrizes-fetiches de Pedro Almodóvar (e que o acompanhou na viagem a São Paulo, quando ele participou da Mostra Internacional de Cinema), faz uma cega guiada por uma cachorra no cio. A entrada em cena dos cachorros cria uma cena cruamente sexual.
Como o título indica, essa série de episódios desconexos trata da perda da inocência sexual. E culmina num desfecho que ordena toda a aparente desorganização anterior, quando fica claro que o tema de Figgis nesse filme é o pecado original. Adão e Eva, interpretados por um rapaz negro e uma garota branca, são expulsos do paraíso por cederem à tentação do fruto proibido oferecido pela serpente.
O experimentalismo de Figgis é um tanto desconcertante. Seu vanguardismo é meio retrô. Mas o filme é suficientemente bizarro para justificar o interesse. É um filme contra o mainstrem de Hollywood. (L.C.M.) Serviço - "A Perda da Inocência". EUA, 1999. Direção de Mike Figgis, com Julian Sands e Saffron Burrows. Columbia, 107 min.

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