Um filme pertubador. Em ''A Fita Branca'' (Das Weisse Band), que estreia hoje no Cine Com-Tour/UEL (ver programação de cinema), o diretor Michael Haneke volta a explorar com maestria os meandros da crueldade humana. O longa-metragem levou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado, O Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ganhou os prêmios de melhor filme e diretor pela Academia Europeia de Cinema.
Ambientado em um vilarejo alemão em 1913 (às vésperas da Primeira Guerra Mundial), o filme relembra, através de narração em off de um dos personagens, uma série de crimes que abalaram a comunidade e permaneceram - supostamente - sem solução.
O rigor do preto-e-branco e a falta de trilha sonora reforçam a gravidade das cenas, tornando a obra bastante seca. É em ritmo lento que as coisas acontecem, e é devagar também que o espectador vai sendo introduzido ao universo familiar do médico, à rígida moral do pastor, ao barão autoritário.
O acidente com o médico, a morte de uma empregada do barão, a tortura de uma criança são crimes que assustam, mas mais impactantes são os excessos cometidos pelos pais. E, no centro de todas as cenas, as crianças. O filme é sobre elas - como sofrem e como reagem à rígida ideologia que lhes é empurrada - com violência - até o âmago.
A fita branca do título é uma forma simbólica encontrada pelo pastor para fazer seus filhos se policiarem constantemente para não pecar, embora ele recorra a outros meios mais agressivos como amarrar um filho em sua cama. Uma dica para quem achar o final inconclusivo: o diretor chegou a cogitar outro título, ''A Mão Direita de Deus'', em alusão à forma como as crianças foram educadas, preparadas para, a exemplo de seus pais, vigiar e punir.
A crítica adorou explorar a ideia de que o filme seria uma tentativa de explicar as origens do nazismo. Mas restringir-se a essa associação é reduzir em alguns metros toda a profundeza do tema abordado. Está-se falando de humanidade ali. Do seu lado renegado, aquele que se senta à sua mesa para jantar mas você finge que não o vê. Se fosse ambientado nos EUA, o filme mostraria pais tentando ser os melhores em tudo, e filhos praticando bullying. Perdidos, os garotos japoneses virariam kamikazes - ou, hoje em dia, cometeriam suicídio. E, no Brasil, sem qualquer disciplina, estudantes chegariam ao absurdo de bater em professores. É sobre esse processo que estamos falando.
''A Fita Branca'' escancara como nós nos permitimos crueldades em nome de um causa maior (Deus, família, tradição e mesmo dinheiro) e disfarçamos as consequências para não assumirmos a responsabilidade. Daí para o desvirtuamento dos próprios valores o caminho é curto e sem obstáculos. E nesse caso, a inocência é a primeira a sucumbir, como bem mostra o filme.

mockup