Quem conseguiu ver Ney Matogrosso em cena, do começo ao fim, voltou para casa deslumbrado. Até quem se virou, ou seja, subiu em cima de alguma coisa - sobre cadeiras ou nas costas de alguém, por exemplo - deve ter voltado também com uma boa impressão. Agora, aqueles que apenas ‘‘ouviram’’ Ney Matogrosso, bateram palmas com vontade mas voltaram para casa decepcionados. Não com Ney - que com seu show ‘‘Olhos de Farol’’, mostrou que é sobretudo uma divindade em palco -, mas com a falta de visibilidade do Cabaré do Filo. Esses ‘‘ouvintes’’ precisaram se contentar em vê-lo aos pedaços, através de frestas do cenário ou nos pequenos ‘‘buracos’’ formado entre o público.
Mesmo quem havia comprado mesa se sentiu prejudicado. É que a turma dos oprimidos e espremidos se achou no direito - até justo - de procurar um lugar mais apropriado para reverenciar a principal atração do Cabaré. O problema poderia ter sido solucionado - ou melhor, amenizado - se os organizadores do Filo colocassem, por exemplo, telões. Um que fosse. Outra solução seria fazer um palco mais alto.
Ora, Deus meu, depois de anos e anos sem vir a Londrina o público queria ver Ney Matogrosso o mais perto ou melhor possível. Ainda mais agora que, depois de 12 anos, ele voltou a beber na fonte do pop, que traz à tona também seu bom e sensacional jogo cênico. Ney é um ator. Cada passo que dá, cada rodopiada em cena ou cada olhar lançado sobre a platéia espalha conotações, comanda ventos e platéias.
Um ponto a favor de Ney e/ou da organização: o show começou com apenas 15 minutos de atraso. Isso é bom. Educa o público. Que assim continue. Outro ponto favorável: o local escolhido para o Cabaré é perfeito - mesmo não tendo um primor de acústica - e foi belamente transformado - a ‘‘floresta’’ de bambus é uma sacada genialíssima. Entretanto, não podemos nos colocar cegos diante de um fato: o espaço está muito bonito e coisa e tal mas deixou a desejar no primeiro dia.
O público - aquelas pessoas que ficaram pescoçando ou empoleiradas e até os mais abastados que tiveram condições de comprar uma mesa - merecia um tratamento melhor. O Cabaré é uma grande idéia, uma iniciativa louvável, já que traz a Londrina shows que dificilmente uma casa noturna traria. E com um detalhe: a preços camaradíssimos.
Mas o local precisa ser repensado (reformulado se for o caso) para que a platéia, nos próximos shows, não precise fazer alongamento corporal forçado ou subir em paredes, em peças decorativas ou trepar nos bambus da ‘‘floresta’’ para ter uma noção do que se passa no palco. Em tempo: quem conseguiu ficar no gargarejo diz que Ney Matogrosso arrasou em algumas performances. E deve ter sido verdade mesmo. Ney merece aplausos ao vivo ou mesmo no CD player.

mockup