A pele trocando de pele
Em alguns dias estamos dispostos a colocar um arma na própria cabeça e puxar o gatilho. Em outros dias ficamos extasiados com a exuberância da vida e sentimos vontade de ajoelhar em agradecimento. Nem exagerando os extremos conseguimos saber com exatidão em que ponto ocorre a mudança de um estado para outro. Isso porque não há um ponto definido para que ocorra as transformações, mas um processo de mudança.
A obra do escritor norte-americano Paul Auster está povoado se situações em que os personagens, quase que por obra do acaso, sofrem transformações que mudam definitivamente suas vidas. Como uma espécie da rito de passagem, os limites da própria identidade são rompidos. Sempre há o momento em que as coisas ficam nebulosas e a transformação ocorre, a pessoa se transforma em outra.
Transmuta como uma serpente que troca de pele. Neste ponto aparece a grande dúvida: a serpente, depois de trocar de pele, continua a mesma serpente de pele nova ou trata-se de uma outra serpente transformada pelo processo de abandonar uma pele e vestir outra?
Em A Trilogia de Nova York, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras, Paul Auster deixa claro que a serpente se torna outra durante o processo de troca de pele. O livro reúne três romance, Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado, que dialogam entre si. São três história que utilizam, como na literatura policial, a imagem do detetive entorpecido pelo desejo de desvendar mistérios para criar uma literatura mais profunda, onde o mistério, o enigmático, é apenas um degrau para atingir a loucura.
As histórias de Paul Auster possuem a capacidade de abrir caminhos onde aparentemente não há caminhos. Talvez isso seja decorrência da própria posição assumida por ele enquanto escritor:O que tento fazer em todos os meus livros é deixar bastante espaço na prosa para o leitor habitá-lo. Porque, enfim, acredito que é o leitor quem escreve o livro, e não o escritor.
Em Cidade de Vidro um escritor de romances policiais chamado Quinn, recebe, por acaso, um enigmático telefonema. Desejam falar um tal de detetive Paul Auster. Quinn decide se passar por Auter e aceita o caso, vigiar um homem que pretende matar o próprio filho. O homem é um acadêmico que acaba de sair da prisão. Seu crime: utilizar o próprio filho num experiência bizarra. Após a morte da mãe, o homem trancou o filho de dois anos de idade num quarto totalmente escuro durante nove anos. Queria saber que o homem sozinho, em total isolamento, seria capaz de desenvolver linguagem. Quinn troca de pele, troca a ficção pela realidade e cai nos braços da loucura.
A história do detetive particular Blue está em Fantasmas. Blue é contratado, por um cliente anônimo, para seguir e vigiar um homem chamado Black. Se alojando em um apartamento em frente ao apartamento de Black, o detetive fica prisioneiro daquele que vigia. Passando os dias lendo Walden de Henry D. Thoreau fechado em seu apartamento, Blue sofre uma transformação semelhante a de Thoreau ao se isolar na floresta. Atormentado, assiste sua vida seguir uma direção completamente contrária deseja. Black passa a ser uma espécie de espelho para Blue. No momento em que o espelho se quebra, não mais se reconhece.
No romance que fecha o volume, O Quarto Fechado, um escritor inédito, Fanshawe desaparece misteriosamente deixando mulher e um filho recém nascido. A esposa encarrega ao melhor amigo de infância de Fanshwe, o narrador, a tarefa publicar dos originais deixado pelo marido. Os textos se convertem em um inesperado sucesso editorial, o narrador se casa com a mulher do amigo é incubido de escrever uma biografia do desaparecido. Então precisa inventar um novo Fanshawe e acaba se confundido com ele. Perdido em um labirinto interior, o narrador precisa exorcizar a imagem do outro para tentar voltar a ser ele mesmo.
Os três romances giram em torno da obsessão de se chegar ao limite, ou até ultrapassá-lo, onde a identidade troca de pele. A constatação de que cada um é o que é e não o que foi. Paul Auster coloca as coisas da seguinte forma: As histórias só ocorrem com aqueles que são capazes de contá-las, disse alguém certa vez. Do mesmo modo, quem sabe, as experiências só se apresentam àqueles que são capazes de vivê-las.
As 51 anos de idade, Paul Auster é um dos expoentes literatura americana contemporânea. Algumas de suas histórias foram transformadas em filme, como A Música do Acaso. Como roteirista, escreveu os premiados Cortina de Fumaça e Sem Fôlego filmados por Wayne Wang. Possui vários livros publicados no Brasil, entre eles O Inventor da Solidão, Mr. Vertigo, Leviatã, A Música do Acaso, O Palácio da Lua, No País das Últimas Coisas (todos pela Editora Best Seller) e Da Mão Para a Boca - Crônica de um fracasso inicial (Editora Companhia das Letras). Na realidade A Trilogia de Nova York foi publicado originalmente no Brasil há dez anos atrás, com outra tradução, pela Editora Best Seller.
A Trilogia de Nova York - Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado de Paul Auster, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueredo, 338 páginas, R$ 23,50.Paul Auster: Em todos os meus livros deixo bastante espaço na prosa para o leitor habitá-lo. Acredito que é o leitor quem escreve o livro, e não o escritor.Marcos Losnak
Especial para a Folha2





