‘‘Mitologia dos Orixás’’, de autoria do sociólogo paulista Reginaldo Prandi, traz a mais completa compilação da mitologia afro-brasileira realizada até agora
Se alguém desejar conhecer a mitologia de origem grega ou européia, terá à sua disposição um número infindável de compilações e obras de referência. Por outro lado, se desejar conhecer a mitologia africana, ou aquela criada pelos indígenas das Américas por exemplo, terá que revirar bibliotecas e livrarias incansavelmente.
Em relação à mitologia afro-brasileira, ‘‘Mitologia dos Orixás’’ vem cobrir uma enorme lacuna nesse sentido. Lançada pela editora Companhia das Letras, a obra é fruto de uma extensa pesquisa de Reginaldo Prandi, professor de sociologia da Universidade de São Paulo. Trata-se do primeiro livro que consegue reunir praticamente todos mitos e lendas do povo africano iorubá que deram origem ao Candomblé brasileiro.
A obra reúne 301 pequenas histórias narradas em versos seguindo a tradição praticada pelos babalaôs (sacerdotes) africanos numa linguagem direta e sintética. Reginaldo Prandi reuniu 301 mitos. Destes, 106 foram colhidos na África, 126 no Brasil e 69 em Cuba. As narrativas fazem parte de uma cultura de tradição oral que somente há poucas décadas começou a ser resgatada em trabalhos acadêmicos. -
Esses 301 mitos, sempre protagonizados pelos orixás, possuem uma função religiosa definida. Os babalaôs fazem uso dessas narrativas no aconselhamento dos fiéis. Eles relatam infinitas situações envolvendo as divindades, os homens, os animais, as plantas, elementos da natureza e a vida em sociedade. Nas palavras do autor, ‘‘na sociedade tradicional dos iorubás, sociedade não histórica, é pelo mito que se alcança o passado e se prediz o futuro, nesta e na outra vida’’. Após a diáspora africana, através do tráfico de escravos, tais mitos se reproduziram na América, principalmente no Brasil e em Cuba.
Segundo a tradição, os iorubás acreditam que os homens e mulheres descendem dos orixás, não tendo uma única origem como no judaísmo e no cristianismo. Cada pessoa, ao nascer, herda do orixá de lhe deu origem suas características, personalidades e desejos: ‘‘Os orixás vivem em luta uns contra os outros, defendem seus governos e procuram ampliar seus domínios, valendo-se de todos os artifícios e artimanhas, da intriga dissimulada à guerra aberta e sangrenta, da conquista amorosa à traição – os orixás alegram-se e sofrem, vencem e perdem, conquistam e são conquistados, amam e odeiam.’’ Nesse contexto, os seres humanos seriam simples ‘‘cópias esmaecidas dos orixás dos quais descendem’’.
Na forma em que foi construída, ‘‘Mitologia dos Orixás’’ é o tipo de obra que pode ser apreciada a partir de quatro campos: mitológico, literário, antropológico e religioso. Sejam eles distintos ou unificados.
• ‘‘Mitologia dos Orixás’’ de Reginaldo Prandi, Editora Companhia das Letras (telefone (11) 3846-0801), ilustrações de Pedro Rafael, 592 páginas, R$ 43,50.

O Nascimento do Mundo

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