A pele ao avesso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
A denominação de excêntrico cai como uma luva no escritor mexicano Mario Bellatin. Práticas nada convencionais o acompanham ao longo da vida. Ele foi capaz, por exemplo, de criar uma escola para escritores onde a principal lição é não escrever. Os alunos são estimulados a não escreverem uma única linha ao longo do curso.
Sua obra segue caminho semelhante, povoado de excentricidades e estranhezas. ''Cães Heróis'', que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify, não foge esse perfil. Com um projeto gráfico instigante, narra a história de um homem imobilizado numa cama acompanhado de 30 cães. Divide a casa com sua mãe e sua irmã, que passam dias e noites separando sacolas plásticas. Vive também na casa seu enfermeiro, que ele trata quase como escravo.
Pode parecer uma história estranha, sem sentido. E é exatamente isso. E nada acontece em toda a narrativa a não ser suposições nunca exatas, comprovadas ou exemplificadas. A impressão é de que Mario Bellatin escreveu um longo romance, depois cortou quase tudo e deixou a história em poucas páginas. Um conto com sensação de romance fantasma.
A narrativa é extremamente enxuta com cortes bruscos pontuado por metáforas que saem de lugar nenhum para pairar sob a narrativa como uma nuvem de chuva que nunca derrama uma gota de água. Nada se conclui, portas e janelas são abertas e não aparece nenhum movimento do vento com a intenção de fechá-las.
A literatura de Bellatin é povoada de aleijados, mutilados, deficientes, paralíticos, implantes, deformações, castrações e outras formas que fogem da ideia de normalidade do corpo. Em suas histórias, o lado de dentro da pele adquire visibilidade. As entranhas podem assumir o papel do lado de fora do corpo. Isso fica evidente nos outros dois livros do escritor publicados no Brasil, o romance ''Salão de Beleza'' (Leitura XXI, 2007) e o volume de contos ''Flores'' (Cosac Naify, 2009).
Em ''Cães Heróis'', o foco não está propriamente no corpo fora da normalidade, mas em sua inoperância. Na ocupação da imaginação perante o silêncio do corpo. Uma imaginação sombria acompanhada de uma sensação de claustrofobia. Todas as possibilidades de explicações são, na verdade, a construção fantasiosa de um sentido para o passado a um passo do abismo. No mistério presente em todo processo está a vida sem conclusão.
Embora Bellatin afirme que não há nenhum traço de surrealismo em ''Cães Heróis'', é impossível não encontrar paralelos. A própria história, coroada de absurdos imunes aos princípios da razão, ao lado de cenas e situações esquisitas, loucas e histéricas, favorecem a associação. Disfarçada de humor negro, a narrativa possui uma desconcertante violência latente, sempre contida pela clausura do corpo. Algo que deixa transparecer uma explosão velada.
Cultuado como uma das grandes vozes experimentais da literatura hispânica contemporânea, Mario Bellatin nasceu em 1960, no México. Autor de 19 livros, viveu grande parte da vida no Peru, na cidade de Lima, antes de voltar fixar residência na Cidade do México. Vítima da talidomida, nasceu sem uma parte do braço direito e usa próteses que se parecem com tudo, menos com braço, mão e dedos. Outra de suas excentricidades.
Vale citar mais uma das suas. Para participar de um congresso de escritores ocorrido em Paris, Bellatin treinou um grupo de pessoas para se passarem por autores. Criou clones que representavam conhecidos escritores, participando de mesas de debates e palestras. E pode acreditar, a ficha do público quase não caiu diante do embuste.
Serviço:
''Cães Heróis''
Autor - Mario Bellatin
Editora - Cosac Naify
Tradução - Joca Wolff
Páginas - 126
Quanto - R$ 37,00
Fragmento:
Perto do aeroporto da cidade vive um homem que apesar de ser considerado um homem imóvel - em outras palavras, um homem impedido de se mover - é considerado um dos melhores treinadores de pastor belga malinois do país. Divide a casa com a mãe, uma irmã e seu enfermeiro-treinador e trinta pastores belga malinois adestrados para matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular. Não são conhecidas as razões porque, ao entrar no quarto onde esse homem passa os dias recluso, alguns visitantes intuem uma atmosfera que guarda relação com o que poderia considerar o futuro da América Latina. Se alguém pergunta sobre a sua condição, esse homem costuma dizer, em sua quase incompreensível maneira de falar, que uma coisa é ser um homem imóvel e outra, um retardado mental.
(Fragmento de ''Cães Heróis'' de Mario Bellatin)


