A paz numa terra distante
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Reprodução/capa do livro
Reprodução/livroHeinrich Kaphan (ao centro), numa roça de mata recém derrubada
Reprodução/livroA hora do rancho, na fazenda Jaú, em Rolândia
Entre os anos de 1933 e 1938 a Companhia de Terras Norte do Paraná vendeu mais de 300 propriedades para famílias alemãs. A princípio, imigrantes deixando a Alemanha em busca de uma vida melhor, assim como outras centenas de imigrantes italianos e japoneses. Mas não. Na realidade, a grande maioria destes alemães eram judeus utilizando uma das poucas alternativas de fugir da Alemanha nazista para não acabarem num campo de concentração.
A partir de 1935, a Cia. de Terras Norte do Paraná espalhou pela Alemanha um sedutor material de propaganda sobre o Brasil, colocando à venda áreas de terras. A região de Rolândia era uma delas. Algumas destas propagandas eram especialmente dirigidas a judeus, com todas as informações necessárias para aqueles que desejassem deixar o país fugindo do regime nazi-fascita.
As transações de venda de terras eram chamadas de negócios triangulares, numa tentativa de burlar as leis alemãs que proibiam a saída de dinheiro do país. As terras eram compradas através de uma conta vinculada à Cia. Paraná Plantation de origem inglesa. Ao efetuar o depósito, os alemães recebiam um título de propriedade que lhes dava direito ao visto de entrada no Brasil. Como esse dinheiro não podia sair da Alemanha, os ingleses utilizavam-no para comprar material ferroviário (trilhos, vagões, locomotivas) da indústria alemã. Estes materiais seriam utilizados para construção da ferrovia que ligaria o Norte do Paraná a São Paulo.
Estes são alguns dos dados revelados pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, no livro Brasil, um Refúgio nos Trópicos - A Trajetória dos Refugiados no Nazi-fascismo. A obra é a síntese de um evento maior, Imagens do Exílio - História, Arte e Cultura dos Refugiados do Nazi-Fascismo, que aconteceu este mês em São Paulo com várias exposições, palestres e ciclo de filme.
Em Rolândia Brasil, um Refúgio nos Trópios, lançado pela Editora Estação Liberdade em edição bilíngue (português/alemão) apresenta rico material iconográfico, entre fotografias, reprodução de documentos e publicações, além de obras de artistas que procuraram refúgio no Brasil. Entre estas imagens estão fotografias da formação das fazendas Jaú e Belmont a partir de 1937 pelas famílias Loeb-Caldenhof e Kaphan. Há também uma reprodução da lista das famílias alemãs que compraram terras na região de Londrina e conseguiram deixar a Alemanha.
Maria Luiza Tucoi Carneiro, professora da Universidade de São Paulo, deixa claro, através de documentos, qu durante o governo de Getúlio Vargas havia uma política extra-oficial de anti-semitismo. Vistos de entrada no país a refugiados judeus eram recusados sob alegações infundadas. Milhares de refugiados tiveram que voltar para a Europa, acabando em campos de concentração.
As rotas dos refugiados para o Brasil eram basicamente três. A primeira era via Xangai, passando por Tóquio, Hong-Kong, Colombo e África do Sul. A segunda eram os portos de Trieste, Marselha, Gênova e Livorno. A terceira, via porto de LIsboa, foi o trampolim para o Brasil de milhares de refugiados judeus e não judeus. Entre estes refugiados estavam pessoas como Otto Maria Carpeaux, Paulo Ronái, Ziembinski, Fayga Ostrower, Frans Kracberg, Herbert Caro, Mathilde Maier e muitos outros.
q Brasil, um Refúgio nos Trópicos - A Trajetória dos Refugiados do Nazi-Fascismo, de Maria Luiza Tucoi Carneiro e Dieter Strauss, edição Angel Bojadsen, Editora Estação Liberdade, 256 páginas, R$ 27,00/Livraria Bom Livro.


