A paulada continua
O heavy metal já morreu quinhentas mil vezes por decreto. O suposto zumbi, porém, atravessa décadas e continua apavorando os vivos com seu exército de subdivisões. Quando o Sepultura estourou no exterior, foi saudado como um dos principais renovadores do gênero, colocando o Brasil no mapa musical dos cabeludos - e na linha de frente ao lado de nomes como Slayer e Metallica.
Hoje, o futuro parece reservar a cova para as duas bandas rivais. Afinal, se a primeira abraçou a ortodoxia, a segunda preferiu a conversão ao baladismo enjoado de FM. Já, ao Sepultura, o horizonte aponta promissoras temporadas de distorção, agressividade e pitadas de experimentalismo. É o que sugere o novo álbum Against, o primeiro com o novo vocalista Derrick Greene e cujo lançamento internacional está marcado para terça-feira.
ReproduçãoNovo disco tem participação de João Gordo
(Ratos de Porão), Jason Newsted (Metallica) e do grupo japonês KodoNo Brasil, a Roadrunner distribui o disco nas lojas só no dia 9, após a ressaca das eleições. Mas, calma, Against não é o melhor álbum já gravado pela banda nem supera o anterior Roots. A virtude do novo repertório está na tentativa de retomar a raiva thrash de álbuns como Beneath the Remanis e ao mesmo tempo preservar a inquietação que alimentou os arranjos dos últimos trabalhos.
Com o disco, os remanescentes Igor Cavalera (bateria), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr.(baixo) e o novato Derrick Green (vocal) colocam um ponto final no episódio que marcou a saída do vocalista Max Cavalera há um ano e meio, depois de muito diz-que-me-diz e dúvidas sobre a sobrevivência criativa da banda.
O pivô do racha, convém lembrar, foi a mulher de Max, Gloria, que era também a empresária da banda. Na ocasião, os outros integrantes a acusaram de dar destaque excessivo ao marido durante as agendas de fotos e entrevistas. A treta culminou com a demissão de Gloria após um show em Londres, no fim de 96. Max, inconformado com a decisão, pediu o boné.
Antes do lançamento do novo CD, o novo Sepultura foi testado em três shows secretos em Los Angeles sob o nome Troops of Doom, numa pequena participação durante a entrega de prêmios do Video Music Brasil promovida pela MTV e no badalado show Barulho contra a Fome realizado em agosto no estacionamento do Anhembi, em São Paulo.
O disco foi produzido por Howard Benson, que já assinou trabalhos para o Motorhead e Body Count. As gravações foram divididas entre São Paulo e Los Angeles. Sem proclamar um conceito, como fizeram com Roots, o grupo tenta atribuir influências orientais ao novo projeto. A começar pela capa, que traz duas máscaras asiáticas.
Entre as faixas, é possível flagrar percussão indiana em Floaters in Mud, em meio a variações de dinâmica que incluem pancadaria hardcore. Mas é kamaitachi que parece canalizar a nova fonte inspiradora do grupo, colidindo a seção de sopros e percussão do grupo japonês Kodo com a base instrumental pesada. Para gravá-la, os rapazes passaram quatro dias na ilha de Sado (norte do Japão).
Além do Kodo, há ilustres convidados colaborando em algumas músicas: Jason Newsted, baixista do Metallica, canta em Hatred Aside; e João Gordo, do Ratos de Porão, dispara impropérios quase inaudíveis em Reza. A curiosidade fica por conta de F.O.E, que pirateia o tema do programa de TV Globo Repórter.
Não menos inesperada é a entrada de cordas na instrumental T3rcermillenium. Derrick Greene, apelidado por João Gordo de O Predador (referência ao personagem celebrizado no cinema por Arnold Schwarzenegger), divide os vocais de algumas canções com o guitarrista Andreas kisser.
Menos gutural que Max, seu timbre de voz ameniza o ranço death que rondava as canções interpretadas pelo antecessor, mas não poupa ferocidade. O disco está saindo em duas versões. A brasileira inclui duas faixas bônus: Prenúncio, música da banda com letra e voz do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão; e uma cover mixando as músicas Gene Machine e Dont Brother Me, ambas da banda norte-americana Bad Brains.
Depois da temporada brasileira, os rapazes viajaram para os Estados Unidos. Greene é de Washington D.C. Os outros estão radicados no País desde a decolagem da carreira internacional, há cinco anos. Igor vive em San Diego, na Califórnia, e os demais em Phoenix, no Arizona. A turnê promocional do disco começa na Europa, provavelmente no final desse mês, ao lado do Slayer.





