A pátria mestiça da arte
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de abril de 2002
Rubens Pileggi<br>Especial para Folha 2 
O que faz da arte uma atividade interessante, sem dúvida, é sua capacidade de se adaptar a inúmeras formas, formatos e expressões, além de estar nos lugares mais surpreendentes em que jamais poderíamos imaginar.
Na entrevista com o artista Edson Barrus, a surpresa vem justamente do fato de que um campo do conhecimento se junta a outro, co-habitando o mesmo espaço, fundindo e confundindo as fronteiras que separam arte e ciência, bem ao gosto da discussão contemporânea que une arte e vida. O projeto cão mulato é um híbrido geneticamente modificado. Utiliza-se das pesquisas recentes da genética, como o processo de clonagem, criticando a noção de pureza racial, limpeza étnica e de todo o discurso que opõe técnica e natureza, refletindo sobre o papel da arte enquanto produtora de sentidos.
Tudo começou quando o artista, há dois anos, visitava a Suiça e estava com a passagem marcada para a Alemanha, primeiro para a cidade de Colonia e depois Bonn. Foi quando uma senhora passou por ele e lhe dirigiu uma ofensa, o chamando de scheisse (merda) por causa de sua cor. No mesmo dia ele cancelou a viagem programada e voltou para o Brasil, determinado a fazer um trabalho que tirasse das pessoas o direito de serem xingadas por causa da cor de sua pele. A ironia que o destino prega é que o artista foi convidado para participar de várias exposições internacionais por causa de seu trabalho, começando justamente por Colonia - onde acaba de inaugurar exposição - e Bonn. Eu sabia que era a partir de lá que o projeto poderia ser negociado, diz, com esperança na proposta de algum laboratório científico para realizar sua experiência.
Em entrevista, o artista fala do Cão Mulato e de outros trabalhos seus - todos processuais - como o Boca Livre que transita entre a idéia da legalidade e da ilegalidade como reflexão e matéria de trabalho artístico, além de seus envolvimentos com o circuito artístico, fazendo o papel de agitador cultural, organizador de eventos e curador de trabalhos de arte. Os meus trabalhos são projéteis, são uma aposta, diz.
Como você foi parar no mundo da arte?
A visibilidade do meu trabalho se dá por ocasião do 1º Artista Pesquisador, no MAC Niterói. Eu já estava no mestrado. Logo depois veio a minha inclusão no elenco de artistas do Itaú Rumos Visuais 2000 com uma certa ressonância, Atelier Finep 2000, depois fui convidado para o ArteLatina e surgiram outros convites. Mas creio que a visibilidade ampliada do meu trabalho se deve à discussão que o Projeto Cão Mulato tem produzido na comunidade acadêmica.
Fale-me de seu processo de criação. De onde surgem suas idéias?
Interessa-me muito as estratégias das empresas de biotecnologias e de telecomunicações e a forma aberta de gerenciamento desses projéteis. Me interessa muito também a reflexão da arte enquanto História e como ela se manifesta na produção emergente. Fugindo sempre das ilhotas de controle, sejam elas/eles quais forem.
Explique o Projeto Cão Mulato. É seu primeiro trabalho artístico?
O projeto cão mulato é um projeto de longo prazo que, além da idéia do viralata, como proposta de criação de um objeto biotécnico que dê conta da idéia de mulatação como produtora de diversidade, deriva para outras propostas, como o Esquizogene e o Genoma de Ouro. Todos explorando as relações entre a criação artística e as tecnologias de reprodução digital e genética. Mas não é meu primeiro trabalho. Tenho uma considerável produção pré-cão que só agora começa a despertar interesse. Boca Livre, por exemplo, é um trabalho que venho desenvolvendo há dez anos e será mostrado na Alemanha, na íntegra, uma vídeo-intalação de 50m2.
Deixa ver se eu consegui entender o Cão Mulato? Você vai pegar seis raças puras e misturar quatro gerações e isso vai resultar em um cão que será clonado.
Isso mesmo.
Mas é só a produção de um cachorro mestiço?
Não só. Existem ramificações muito próximas da tecnologia e da ciência. O genoma padrão de ouro é um deles. É um genoma que seria 100% natural. Como ele existe na natureza, sem nenhuma modificação, sem nenhuma alteração. Eu creio que, se é que pode existir esse genoma, então só quem pode produzir é a arte. Então eu me proponho a fazer três bilhões de letras químicas que são letras feitas por reprodução, em xerox. É uma aposta em mapear, fazer uma biblioteca. Minha proposta é essa. Geralmente os conceitos são bem fascistas.
E há a idéia do gene esquizo, cuja característica seria a de produzir mudança. Quebrando totalmente a lógica determinista de um gene para cada função. Um gene para olho azul, um gene para cabelo crespo, etc. Esse gene teria livre trânsito e, de acordo com o local onde se instala, exerce uma função, depende do vizinho. Não é uma coisa fixa, uma transcrição literal. Ele não está, na cadeia genética, em tal local. Na biologia nada é tão localizado assim, tão fixamente.
Indeterminação...
Se você perceber, eu quase que trago a genética para uma proposição metafísica. Os cientistas dizem que noventa por cento do nosso genoma é lixo porque não sabem para que eles servem. Costuma-se dizer que o que não se conhece não presta, mas na natureza isso não pode acontecer.
Por que você diz que o projeto do cão mulato é uma obra de vigilância da arte e da ciência juntas?
Porque eu não acredito em nenhuma das duas. O cão tem uma postura de vigilância. Eu quero colocar em xeque este discurso da interdisciplinaridade, o discurso da pureza, essa instrumentalização toda.
Como seu trabalho vem sendo recebido pela crítica e pelo público?
A reflexão sobre o Projeto Cão Mulato tem sido abrangente. Vai desde uma interpretação como crítica ao racismo e à eugenia, até a inscrição da crítica genética em rigorosos padrões estéticos. A comunidade artística aceitou de pronto minha proposta, agora, na comunidade científica tenho encontrado barreiras. É normal.
Você pretende continuar este projeto?
Agora com a publicação do texto em alemão e o mapeamento integral do genoma canino, abrem-se possibilidades, mesmo, de desenvolver minhas investigações em alguma universidade ou empresa de genética alemã. A possibilidade de desenvolver a pesquisa está sendo buscada através de negociações, que não são nada fáceis. É necessária uma mente mais sofisticada da comunidade científica e dos financiadores, para perceber o potencial e apostar na pesquisa. Os nossos cientistas trabalham com técnicas aplicadas e não têm a tradição da abstração.
E por que você não pegou um vira-latas qualquer?
Com o Projeto Cão Mulato inicio um trabalho interdisciplinar que não termina em si mesmo, mas que deve servir a uma finalidade política ou de pedagogia política. Não quero encontrar justificativas científicas para uma escolha política pré-determinada. Não me interessa desenvolver o cão mulato isoladamente. É necessária a discussão que o objeto pode produzir para a sua validação pela sociedade. Não me interessa ser um artista exótico, ou um criador exótico, ou ser dono de uma raça. Me interessam os processos.
Sua produção em arte vai além de seus projetos pessoais, não? Quais são eles?
É tudo parte do mesmo projeto de um artista que acredita no mundo e que engendra novos acontecimentos, mesmo que pequenos, mas que escapem e atestem uma capacidade de resistência a um controle.
Quais são?
O ArtTrainee é um. Surge da necessidade de transmitir meus conhecimentos a uma demanda real. Em 2001 agenciamos mais de 40 artistas. Já o Zona Franca é um play-ground, nasceu da percepção da falta de um laboratório de contemporaneidades, onde os artistas pudessem se exercitar sem o julgamento de professores, de críticos ou qualquer outra pessoa. Um território de experimentação livre, de cruzamentos de processos. Deu certo, foi considerado uma das iniciativas mais significativas de 2001 e já está em sua 36ª edição possibilitando toda segunda-feira o encontro de artistas na Fundição Progresso para experimentar a produção da nova arte. Também tenho feito curadorias para a galeria da Universidade Federal Fluminense e na minha casa, com o rés-do-chão, que se transforma em galeria todo o primeiro sábado de cada mês.
O que é a arte para você?
É agir com eficácia em situações estáveis, desestabilizando-as. O papel do artista não é dar super-opiniões, simpáticas e inovadoras, mas sim, oferecer uma visão talvez tão verdadeira quanto possível da realidade.
Dá a impressão que seus trabalhos nunca têm fim.
Os meus trabalhos são projéteis, são uma aposta. Parece que é uma forma de garantir a minha vida. Eu vivo em função dos projetos.
O Boca Livre o que é?
Uma videoinstalação. Work in progress de 10 anos. É um trabalho que tem a questão da matéria, do gesto, do fazer constante, mas no final das contas, guarda essa relação do jogo entre o lícito e o ilícito. São vários trabalhos que se juntam em uma instalação. Eu trabalho isso diariamente, todo dia. É um trabalho que ninguém vê inteiro, só a atualização dele. Eu sempre realimento o trabalho, essa linha (mostra uma enorme fita feita de maços de cigarros vazios) dava 50 metros, mas agora eu não sei. Fiz esse cubo grudando a seda do papel de enrolar baseado uma a outra e conforme ela vai sendo usada seu volume diminui até desaparecer. Com a sobra do papel queimado eu construo uma esfera que terá um quilo e duzentos gramas, o peso médio de um cérebro masculino. É a prova do consumo.
Voltando, você estava em Colonia, foi chamado de scheisse...
Na realidade foi tudo mais complicado, porque minha estada na Alemanha me trouxe outra forma de pensar sobre mim. Na hora eu fiquei bravo, mas na volta eu ficava pensando na possibilidade de criar uma estrutura que impossibilitasse este tipo de discurso purista, neo-nazi. Logicamente que com as minhas pesquisas, o meu interesse sobre genética, a minha leitura sobre o pluralismo e tudo mais eu cheguei ao Cão Mulato enquanto idéia.


