O crítico teatral, ensaísta e imortal da Academia Brasileira de Letras, Sábato Magaldi, tem se dedicado há décadas ao estudo da obra de Nelson Rodrigues. Seus estudos sobre a obra rodrigueana desvendam o imaginário coeso e original e funcionam como salvo-conduto para transitar com mais segurança no universo paralelo do dramaturgo. Autor de''Nelson Rodrigues: Dramaturgia e Encenações'' (Editora Perspectiva), Sábato Magaldi conversou, por telefone, com a Folha2, destacando a relevância do reaça de suspensórios na cena teatral brasileira e na dramaturgia universal. A seguir, a conversa com Sábato Magaldi.
Qual o legado que Nelson Rodrigues deixou para a literatura brasileira?
Nelson Rodrigues é o maior dramaturgo que o Brasil já teve, com a obra mais densa e consistente. Com a montagem de ''Vestido de Noiva'' (1943), ele criou o espetáculo moderno no Brasil. Ziembinski fez uma direção brilhante, com centenas de efeitos luminosos. A partir daí tudo teve que ser alterado no teatro. ''Vestido de Noiva'' foi grande na dramaturgia e no espetáculo.
O que falta para Nelson Rodrigues conquistar o reconhecimento no exterior como grande dramaturgo?
Os textos de Nelson também são montados no exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, foi feita uma montagem muito boa de um espetáculo na Califórnia que está com tudo para ir à Broadway. Mas o teatro europeu é muito forte, ligado à tradição da palavra, com princípio, meio e fim. E Nelson vem e revoluciona tudo isso. Nelson Rodrigues ainda vai acontecer, tenho certeza.
O senhor acredita que mudou a abordagem sobre a obra de Nelson Rodrigues. Ele deixou de ser pornográfico e reacionário?
O fato de Nelson ser chamado de pornográfico é coisa do passado. Isso é até ridículo. Agora, como reacionário, ele tinha idéias políticas e isso é normal num país democrático. É pelas qualidades artísticas que ele deve ser julgado. Muito do que Nelson fazia era para provocar.
Para quem apenas ouviu falar em Nelson Rodrigues ou assistiu a algum especial na tevê, o que o senhor recomenda para leitura?
Com relação ao teatro, recomendaria começar a ler as primeiras peças, em especial ''Vestido de Noiva''. Uma outra peça, já do final de sua produção dramatúrgica, destacaria ''Toda Nudez Será Castigada'', um grande texto, qualquer pessoa vai se sentir tocado ao ler. Vale a pena ler as memórias e confissões, uma série que foi publicada durante anos nos jornais e foi relançada recentemente em livros. Já os romances em que ele usava pseudônimos femininos, que foram feitos mais para sobrevivência, não têm o mesmo valor literário.
Que montagens o senhor assistiu nos últimos tempos e que considera interessantes sobre o universo rodriguiano?
As últimas abordagens mais significativas foram realizadas por Antunes Filho em ''Nelson Rodrigues O Eterno Retorno'' e ''Nelson 2 Rodrigues''. Mas a obra de Nelson passou a ser muito montada em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Salvador.
Que características o senhor destacaria do dramaturgo que o coloca como um dos grandes da dramaturgia universal?
O dom do teatro que encontramos em Nelson Rodrigues é fantástico. A teatralidade da obra, o diálogo é vivo, riquíssimo. Tudo é importante, cada palavra ressoa. Outro aspecto é a capacidade de NR em desmontar os artificialismos dos personagens. Ele mostrava o que era postiço no personagem.
O senhor que foi estudioso da obra e amigo pessoal de Nelson Rodrigues, que lembrança mais marcante tem dele?
Tive contato muito grande com ele. Quando mudei para São Paulo, nos anos 50, conversava por telefone com ele todas as noites. Sempre que voltava ao Rio de Janeiro ia à casa dele. Era uma grande amizade que não se restringia ao teatro. Eu sinto muita falta dele.

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