‘‘A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio; não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar.’’
A frase acima, expressa em 1907 pelo frequentador da metafísica Fernando Pessoa em suas ‘‘Idéias Estéticas’’, propõe uma revisão do que tem sido produzido desde a chamada ‘‘retomada do cinema brasileiro’’ a partir de 1995.
Desde a boa recepção a ‘‘Carlota Joaquina - Princesa do Brasil’’ de Carla Camurati, o público brasileiro voltou a se acostumar com a linguagem tupiniquim nas telonas, tornando ‘‘Central do Brasil’’, ‘‘O Auto da Compadecida’’ e ‘‘Eu, Tu, Eles’’ sucessos de público comparáveis às produções em série ‘‘made in USA’’. Mas o propósito de uma criação artística não é unicamente agradar, e nesse ponto as coisas se complicam.
Apesar da diversidade temática do cinema brasileiro contemporâneo, dois modelos de filmes vêm se tornando frequentes. Os que buscam o sucesso comercial e os que almejam reconhecimento estético. Até aqui, tudo normal, pois a arte sempre incluiu autores que desejam entreter ou provocar catarses no público.
Entretanto, o modelo de cinema mais próximo ao entretenimento tem se afirmado como linguagem predominante, trazendo para si questionáveis reconhecimentos estéticos. Um bom exemplo desde sintoma são as análises publicadas sobre ‘‘A Partilha’’ de Daniel Filho. Em três semanas de exibição, o filme já conseguiu levar 700 mil espectadores para o circuito exibidor. Filho contou nesta segunda-feira aos entrevistadores do programa ‘‘Roda Viva’’ da TV Cultura de São Paulo, que foram investidos R$ 1 milhão somente na propaganda do filme. E acrescentou que para se pagar esta publicidade são necessários 495 mil espectadores.
Não se pode negar que ‘‘A Partilha’’ cumpriu sua função comercial e que tem agradado muitos fãs. O roteiro, escrito a quatro mãos, é baseado em peça homônima de Miguel Falabella do início da década passada. Mostra quatro irmãs em conflitos que se originam na multiplicidade de suas particularidades. O que não existe em ‘‘A Partilha’’, e muitos têm lhe atribuído, são valores estéticos superiores ao agradar.
Como o próprio Daniel Filho define, a proposta é entreter. E entretenimento não comporta intensidade, já que sua força está ligada ao variar. Variar a não-durar, explicava Pessoa. E o que não dura nunca pode ser muito intenso, conclui o poeta dos outros eus.
Falabella apresenta os conflitos básicos de uma boa fantasia dramática. Entretanto, na hora de desenvolvê-los, aprofundá-los, muda o seu foco e se centra na comédia. Como se tudo na vida pudesse ser adiado.
‘‘A Partilha’’ não é um filme ruim, que fique claro. Mas é uma obra destinada ao entreter e não pode servir de exemplo estético para o cinema nacional. Obras como ‘‘Cronicamente Inviável’’ de Sergio Bianchi, ‘‘Quase Nada’’ de Sergio Rezende, ‘‘Santo Forte’’ de Eduardo Coutinho, ‘‘Amores’’ de Domingos Oliveira, ‘‘La Serva Padrona’’ de Carla Camurati, ‘‘O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas’’ de Marcelo Luna e Paulo Caldas e a obra-prima ‘‘Terra Estrangeira’’ de Walter Salles são bons exemplos de como deve se solidificar a proposta estética do cinema brasileiro desde o começo de milênio. São obras que tendem a nos libertar e nos elevar, princípios básicos da arte. Obras que demonstram a necessidade de um País que quer se ver na telona, não apenas se divertir. Que ‘‘A Partilha’’ não se torne um exemplo de como fazer cinema no Brasil, e sim, um modelo de entretenimento que pode dar certo. (R.S.G.)

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