A paixão segundo Clarice
Hoje faz 22 anos que morreu Clarice Lispector, a dona do texto mais denso e poético da literatura brasileira
Ilustração: Iara Lessa
Iara Lessa
De Londrina
Especial para Folha2
Densidade psicológica mergulhada em poesia. Solidão & lirismo. Nuances. Sombras. São alguns dos mistérios do texto de Clarice Lispector. Essa escritora russa naturalizada brasileira que é mais conhecida pelo público e crítica do exterior do que do Brasil.
Comparada à James Joyce e Virginia Wolf no começo de sua carreira pelo crítico Álvaro Lins, o nome de Clarice acabou sempre ligado a adjetivos do tipo: escritora inacessível, esquisita (e lá isto era mesmo), representante significativa de uma literatura feminina e blablablá. Pena, o texto de Clarice é uma dádiva.
Um texto para ser lido de sopetão. Tal como a vida acontece, sem maiúsculas começando parágrafos, sem pontos terminando frases, o texto parece formado de pequenos fragmentos colhidos do dia-a-dia de diferentes pessoas coladas a uma só personagem. Um mosaico de emoções contidas, sempre permitindo que se junte mais e mais pedaços. Expandindo sempre.
Clarice terminou de escrever seu primeiro romance (Perto do Coração Selvagem) em 1944, aos 17 anos. Como não era conhecida, fez um acordo com o jornal A Noite, onde trabalhava como repórter, e publicou o livro. Dois anos depois, quando morava em Berna, na Suíça, Clarice publica O Lustre. Segue-se depois, a publicação de A Cidade Sitiada, em 49.
Mas foi somente depois de publicar três romances que ela mostrou ao público sua caixa de pandora: os contos. Um capítulo à parte na literatura brasileira.
Laços de Família, publicado em 1960, reunia contos espalhados por diversas páginas de jornais e revistas com as quais ela colaborava. Sua galeria de tipos perdidos, sempre em busca de explicações para o inexplicável, ansiosas personagens imobilizadas pela tensão da narrativa, finalmente ganham espaço para desabrochar.
A Legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, A Imitação da Rosa, A Via-crúcis do Corpo e Onde Estivestes de Noite? revelam a produção de contos da autora entre os anos de 1964 a 1974. Adepta do a coisa vem, uma espécie de chavão usado pela escritora para definir seus momentos de criação, a escritora continuou perseguindo o núcleo pulsante da vida em seus textos. São ao todo 24 livros, sendo quatro escritos para crianças. Quando morreu, vítima de câncer, em 12 de novembro de 1977, Clarice ainda escrevia freneticamente. Sua amiga, confidente e secretária particular, Olga Borelli, registrava as idéias que iam sendo ditadas pela escritora, quase como uma veia aberta que jorra sangue, matéria-prima de sua obra. Quando estava morrendo Clarice escreveu: ...meu futuro é a noite escura e eterna. Mas vibrando em elétrons, prótons, neutrons, mésons - e para mais não sei, porém, que é no perdão que eu me acho.





