A paixão segundo a loucura
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Os poetas clássicos comparavam o amor e a paixão como uma chama, um fogo que arde no interior dos corpos dos amantes. Os escritores modernos estabeleceram uma distinção entre amor e paixão. Passaram a comparar o amor a uma fogueira de chamas calmas, um braseiro que queima lentamente e se prolonga pelo tempo. Um braseiro que, pela sua tranquila densidade, seria capaz de sobreviver até mesmo sob chuva. Por outro lado, descreviam a paixão como um fogueira de altas chamas, com um calor tão intenso, que seria capaz de chamuscar tudo aquilo à sua volta. Um fogo que consumiria todo o combustível num breve tempo, não resistindo às primeiras gotas de chuva.
Essa força da paixão que pode devastar tudo à sua volta, que pode destruir até mesmo os próprios amantes envolvidos pelo fogo, é o ponto central do romance Manicômio de Patrick McGrath, lançado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se do primeiro livro do escritor inglês publicado no Brasil. Aos 49 anos de idade, McGrath é apontado como um dos expoentes da atual literatura gótica inglesa (também chamada de neogótica). Uma das principais características de seus romances está em não utilizar o horror e o grotesco de origem sobrenatural, mas de origem no próprio comportamento humano.
Manicômio coloca num mesmo tempo/espaço a paixão (desejo sexual) e loucura (doença psicótica). O resultado é eletrizante. Os limites que demarcam onde começa a paixão e termina a loucura, ou onde começa a loucura e termina a paixão, são eliminados: paixão torna-se loucura e loucura torna-se paixão. Numa viajem obsessiva e descontrolada, os amantes envolvidos caminham para a destruição. A morte assume a imagem do único ponto final possível. O romance narra a história de Stella e Edgar, dois amantes que consomem-se no fogo da paixão e no espiral da loucura. Enfim, extinguem-se.
Stella é uma mulher respeitada, esposa de Max. Formam um jovem casal inglês tradicional. O filho Charlie completa a família feliz. Médico psiquiatra, Max assume o cargo de vice-diretor de um manicômio no final da década de 50. A família passa a morar uma bela casa no interior do hospital psiquiátrico. Tudo parece um paraíso até Stella se sentir atraída por um interno, Edgar, que cuida dos jardins. Edgar, artista plástico, está confinado na instituição há cinco anos por ter assassinado a esposa. Matou a mulher à martelada, cortou sua cabeça, fixou-a num pedestal e, utilizando suas ferramentas de escultor, trabalhou a cabeça como um bloco de argila.
O que parecia impossível acontece, Stella e Edgar se entregam numa relação clandestina de grande intensidade carregada de obsessão sexual. Utilizando a paixão de Stella, Edgar consegue fugir do manicômio. Não conseguindo viver sem o objeto de sua paixão, Stella acaba fugindo de casa, abandonando esposo e filho, para viver com Edgar foragido da polícia. Passam a morar num armazém de periferia, onde Edgar volta a esculpir. - Em pouco tempo o artista volta a ter surtos psicóticos. Temendo ser assassinada, Stella volta desequilibrada para casa. Desequilíbrio que culmina com a morte do filho.
Stella passa viver como interna em tratamento no mesmo manicômio em que morava como mulher do vice-diretor. Edgar, recapturado, volta para o mesmo manicômio. Unidos pela paixão e separados pela loucura. -
A história é narrada por um psiquiatra, Dr. Peter, amigo íntimo da família e médico de Edgar, posteriormente, também psiquiatra de Stella. No fim de seu relato sugere que a vida de seus pacientes, a destruição do casal provocada por uma obsessiva paixão, estavam em suas mãos. Objetos de uma outra obsessão.
Em Manicômio Patrick McGrath envolve o leitor numa tensão psicológica. Oferece fragmento por fragmento para no final apresentar uma imagem panorâmica. Ao mesmo tempo que apresenta a intensidade do fogo da paixão que busca a realização, apresenta a desestabilização do mundo à volta dessa paixão. Desestabilizado, esse mundo tende a utilizar todas armas opressivas para anular tal paixão e voltar à sua estabilidade.
Manicômio de Patrick McGrath, Editora Companhia das Letras, tradução de Henrique W. Leão, 258 páginas, R$ 26,00.





