A paixão pelo popular
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quinta-feira, 10 de julho de 1997
Célia Polesel Londrina 
Mário CésarEduardo Escalante: Folclore é todo fato proveniente da cultura espontâneaFolclore, segundo a definição do dicionário, é o conjunto de tradições, conhecimentos ou crenças populares expressas em provérbios, contos ou canções. Mas, para o professor e pesquisador Eduardo Escalante o folclore é uma grande paixão que ele cultiva desde menino. Entretanto, ele está na cidade na condição de professor dos cursos de Harmonia e Análise do 17º Festival de Música de Londrina.
Escalante nasceu na Argentina e veio para o Brasil aos 12 anos. O pai, um entusiasta do Brasil, todo final de semana viajava para conhecer um pouco mais sobre o país que escolhera para viver. Ele escolhia uma estrada, naquela época, 1949, todas de terra e nós saíamos viajando. Nunca sabíamos o que viria pela frente. Nessas andanças sempre encontrávamos manifestações populares como congandas, festas típicas, violeiros e isto me encantava e aumentava meu interesse pelo folclore, conta.
Na década de 60 aconteceu em São Paulo um festival de folclore. Foi aí que Escalante conheceu os grandes folcloristas da época, o que fez aumentar ainda mais seu interesse pelo folclore brasileiro e principalmente paulista.
Escalante era um assíduo frequentador da Festa de Santa Cruz da Aldeia de Carapicuiba e tornou-se um especialista sobre o assunto. Em 1974 ganhou o prêmio Silvio Romero com as pesquisas realizadas na Festa. Nesta mesma época, ele foi convidado pelo Museu da Imagem e do Som para fazer um levantamento folclórico do Vale do Ribeira (SP) o qual pesquisou durante dois anos.
Todos os dados obtidos naquela pesquisa estão expostos no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Foi um trabalho gratificante, pois na época era o único folclorista que recebia para fazer pesquisas folclóricas, afirma. Além destas Escalante pesquisou o Cururu, que é uma cantiga em desafio cuja única finalidade é a espontaneidade da cantoria, ou seja a manifestação dos sentimentos dos violeiros.
Esta tradição abrange o estado de São Paulo e o Mato Grosso. No sertão da Bahia Escalante fez um levantamento sobre a Guerra de Canudos, que neste ano comemora o seu centenário. As anotações vão se transformar em livro. Fui a Canudos umas seis vezes e em cada uma passei lá um mês. No livro além do aspecto histórico há também o lado folclórico, as lendas e superstições que surgiram em torno dele, adianta Escalante.
Receio do santoPara o pesquisador, o povo brasileiro preserva e respeita suas tradições folclóricas apesar de toda a influência dos meios de comunicação de massa. A grande religiosidade do brasileiro e a manutenção das festas são um exemplo da preservação do foclore. Como exemplo ele cita a Festa dos Santos Reis, onde os violeiros fazem os versos espontaneamente para agradar aos santos, mas têm um certo receio por não saberem se os estão agradando.
Outro fato interessante aconteceu quando assessorava a produção do programa Folclore do Brasil da TV Cultura, durante a gravação da dança em homenagem a São Gonçalo o produtor pediu que os participantes descrevessem a dança e ao constatar que os movimentos se repetiam a noite toda e somente o final seria diferente pediu que eles fizessem o começo da dança e depois um pedaço do final para a gravação, recebeu como resposta com São Gonçalo não se brinca moço!. Para Escalante estes são exemplos de como a religiosidade ajuda na preservação do folclore.
Diz ele: Folclore é todo fato proveniente da cultura espontânea, as festas, músicas, o artesanato e a culinária espontâneos são folclóricos. Destes a que mais se preserva é a culinária como, por exemplo, o Barreado um prato típico do sul do Paraná que mantém o mesmo preparo desde o seu início. Escalante completa, em 97, 60 anos de idade dos quais 37 dedicados à pesquisa folclórica. Além disso como músico tem usado fatos do folclore em suas composições musicais.


