“Se o jornalista não é apaixonado pela vida, pode ser tudo, mas não é não jornalista.” Essa frase é a síntese de 50 anos de profissão do jornalista Nilson Monteiro que está lançando seu novo livro: “Jornalismo Se Escreve Com Seis Letras: Paixão”.

Publicada pela Fecomércio, a obra é uma aula de jornalismo que reúne mais de 80 reportagens e entrevistas produzidas ao longo das décadas e publicadas em jornais como Folha de Londrina, Panorama, Novo Jornal, Movimento, O Estado do Paraná, Gazeta Mercantil, Revista do Comércio, IstoÉ e Nicolau.

Radicado em Curitiba há quatro décadas, Nilson Monteiro está em Londrina para dois lançamentos de “Jornalismo Se Escreve Com Seis Letras: Paixão”. Nesta quarta-feira (27), 18h30, na Sede Central da OAB e na quinta-feira (28), às 10h, na Sala de Eventos do CECA da UEL.

Nilson Monteiro na redação da Folha de Londrina; ele trabalhou na cidade entre os anos 1970 e 1980
Nilson Monteiro na redação da Folha de Londrina; ele trabalhou na cidade entre os anos 1970 e 1980 | Foto: José Pedro/ Divulgação

Para Monteiro, o jornalismo “pede percepção, curiosidade, instinto, dúvida, comprometimento, criatividade, técnica, tato, talento, instinto, loucura, coragem, independência, desprendimento... Enfim, atributos, emoções e razões que se resumem em paixão.” E vê o livro como “testemunho de quem acostumou-se a batucar teclas e ajuntar palavras e sons e imagens para contar fatos, alegrias, dores e sonhos espalhados pelo dia a dia das pessoas.”

Autor de 19 livros, Monteiro viveu em Londrina nas décadas de 1970 e 1980 onde foi jornalista da Folha de Londrina. A seguir ele fala sobre o novo livro e defende a ideia de que “sem paixão, não há jornalismo”.

Com toda uma vida dedicada ao jornalismo, você deve ter produzido uma enorme quantidade de textos ao longo das décadas. Como você selecionou os mais de 80 textos que integram “Jornalismo Se Escreve Com Seis Letras: Paixão”?

O critério inicial foi separar textos que justificassem a tese do livro e de toda minha vida, as seis letras com as quais se escreve jornalismo: paixão. Outro critério foi separar os textos por fases, ou por décadas, a partir dos anos 1970, quando me apaixonei de vez pela profissão, no Novo Jornal, em Londrina. E ainda pensei em separar textos que trouxessem o contexto de quando foram escritos: os dos anos 1970, a descrença de que o homem teria ido pra lua, o fim dos lambe-lambes nas praças ou da profissão de carroceiro etc.; dos anos 1980, que trazem embutidos, em várias entrevistas, as fagulhas da sociedade sobre o início de novos tempos, a tentativa de construção de um Brasil mais democrático, inclusive sob o ponto de vista de estudiosos estrangeiros, como o russo Boris Koval, ou o filósofo Paul-Eugène Charbonneau ou de personagens como o jogador de futebol Sócrates, da atriz Bibi Ferreira, das escritoras Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles... E assim até aos tempos mais recentes. E ainda faltaram tempo e saúde para derriçar pilhas de jornais...

Reportagens e entrevistas publicadas em jornais de Londrina, nas décadas de 1970 e de 1980, ocupam uma parte significativa do livro. Como foi atuar como jornalista na cidade naquela época?

Foi uma delícia. Primeiro, porque em todos os jornais nos quais trabalhei sempre tive sinal verde para minhas propostas de pauta. Segundo, porque Londrina borbulhava em todos os setores culturais (música, literatura, teatro, etc.). A cidade estava no roteiro de grandes nomes das artes do país e da América Latina. Revelava-se na democratização de ciência, pesquisa e extensão na então FUEL. A cidade borbulhava na política institucional, com representatividade e força nacional, no meio estudantil, com um aguerrido movimento universitário, na economia, com mudanças significativas no campo e na cidade. Também fervia no esporte nos tempos áureos do Londrina Esporte Clube. Era uma cidade que dava de ombros para a tradição. Londrina era um grande barato. A Elis Regina, em meio a uma entrevista, disse-me: “Vocês fazem e vivem numa puta cidade!”

O “jornalismo paixão” permeou uma geração de profissionais nas décadas de 1970 e 1980 e você viveu intensamente esse jornalismo. Qual o seu “jornalismo paixão”?

Desculpe a falta de modéstia, o meu jornalismo e o de centenas de profissionais no país ou fora dele que norteavam e ainda norteiam sua conduta. Principalmente como cidadãos, pela máxima socrática (“só sei que nada sei”), pelo desejo da descoberta, pela bússola da dúvida, pelo tesão da busca e das descobertas, pela proposta de estar ao lado das pessoas e respeitá-las (especialmente as mais desvalidas), pelo interesse a cada minuto do que acontece em todos os estratos sociais, em todos os lugares, enfim, pelo ser apaixonado. Se o jornalista não é apaixonado pela vida, pode ser tudo, mas não é não jornalista.

Leia mais:

Você presenciou todas as transformações ocorridas no jornalismo ao longo dos últimos 50 anos. Que leitura você faz do jornalismo dos dias atuais? Existe espaço para o “jornalismo paixão”?

Existe espaço sim. Há essa divisão real, com todas suas consequências, entre o que chamavam de jornalismo “romântico” e o tal “industrial”. Mesmo com as incrivelmente velozes mudanças da sociedade (e também na nossa profissão) e a quantidade espantosa de aparato tecnológico disponível com novidades a cada segundo, a pergunta é: o que move o jornalismo? Para uns, a transferência energúmena de conteúdos e fórmulas feitas, copiadas, padronizadas, insonsas, grotescas e farsescas.

Para outros, a pesquisa, a descoberta, a dor, a alegria, os poros, o sangue, o texto bem construído, inovador, atraente, o tesão, o frêmito, a paixão. Isso fica claro mesmo nesse tal jornalismo industrial. Claro, que o coitado do profissional ao sair para a rua, ou consultar fontes virtuais, como cinco pautas para cumprir, com roteiro pronto a nortear sua reportagem, não pode mostrar a qualidade que muitas vezes tem. Mas, mesmo assim, em todos os meios de comunicação, até no virtual, percebe-se se o cara é apaixonado ou não. Jornalista é a antena da raça, tanto para o bem quanto para o mal.

Algumas reportagens que integram o livro retratam uma Londrina do passado: a última viagem do trem, os últimos fotógrafos lambe-lambe do Bosque, o trabalho dos chapas, os derradeiros carroceiros do centro da cidade, etc. Essa Londrina ainda povoa suas lembranças?

Mas é claro que sim. E cada vez que lembro, sinto o cheiro, as sensações, as descobertas, as personagens, o mapa humano da cidade, e choro de emoção e de felicidade por ter vivido tudo isso. Sou feito, como cidadão e profissional, do que vi e senti, do que vejo e sinto e ainda do que minha razão, minha emoção e instinto “descobrem” no futuro. Jornalista tem coração e fígado, sente, sofre, ri, se emociona, se irmana, se estrepa, vive personagens e situações, vai ao céu e ao inferno com tudo aquilo que o rodeia, do mel ao fel. Sem nenhum vestígio de nostalgia, mas com paixão, ainda sinto o balançar dolorido da última viagem do “trem dos pobres”, que cobri junto ao fotógrafo José Pedro, o desespero das prostitutas com o fim de sua “cidade” para baixo do Estádio VGD, o preconceito desgraçado contra a travesti Joana, o incenso das últimas missas da antiga Catedral, com o Xico Rezende chorando pelo silêncio dos sinos... Ainda me inebriam o perfume dos braços floridos dos cafezais e o funeral de suas raízes, com o campo a cuspir trabalhadores para estufar cidades e por aí vai... Isso tudo e muito mais seguiu em minha vida e está dentro de mim. Meu Deus!

Imagem ilustrativa da imagem A paixão pelo jornalismo está em novo livro de Nilson Monteiro
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Jornalismo Se Escreve Com Seis Letras: Paixão”

Autor – Nilson Monteiro

Editora – Fecomércio PR

Páginas – 384

Quanto – R$ 50

Lançamentos:

Quando – Quarta-feira (27), às 18h30

Onde – Sede Central da OAB (Rua Professor João Candido, 344, 4º andar)

Quando – Quinta-feira (28), às 10h

Onde – Sala de Eventos do CECA da Universidade Estadual de Londrina (Campus

Universitário)

mockup