A PAIXÃO NA PONTA DOS DEDOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de novembro de 2001
Marcos Losnak<br>De Londrina - Especial para a Folha2 
Todos os dedos são iguais perante a mão. Pelos menos aparentemente. Mas existe um deles que possui um poder geralmente negado aos outros dedos: o caráter sexual. Chamado de dedo médio, também conhecido como o ''fuck'', pode ser considerado um pênis sobressalente. Tanto no sentido simbólico, como no sentido prático.
A escritora carioca Fernanda Young escolheu o dedo médio, o mais libidinoso dos dedos da mão para escrever o romance ''O Efeito Urano''. O livro é o segundo título da coleção ''5 Dedos de Prosa'' da Editora Objetiva iniciada com ''O Indigitável'' de Carlos Heitor Cony, que teve como ponto de partida o indicador.
Para compor a coleção, cinco escritores brasileiros foram convidados para escrever histórias que girassem em torno dos dedos os populares mindinho, seu vizinho, pai-de-todos, fura-bolo e mata-piolho. O próximo volume, ''Buscando o Mindinho'' de Mário Prata, será lançado em janeiro de 2002. Na sequência virão romances de Luis Fernando Verissimo, focalizando o polegar, e Manuel Carlos, abordando o anular.
Em ''O Efeito Urano'' Fernanda Young não fica confinada ao dedo médio para narrar a história. Utiliza-o apenas como um pequeno elemento no interior de uma torrencial paixão. Mostra a aventura de uma mulher em descobrir que possui um pênis entre o indicador e o anular. Essa descoberta vem atrelada à compreensão de que a paixão é uma pedra montanha abaixo, da mesma forma que a desilusão amorosa é uma pedra montanha acima.
''O Efeito Urano'' narra a história de Cristina, uma jornalista liberal casada com Guido, uma terapeuta freudiano. A estável relação do casal começa a ser abalada com o aparecimento de Helena, uma nova amiga de Cristina. Utilizando a intimidade do contato feminino, Helena lentamente seduz Cristina, até conseguir levá-la para a cama.
No princípio, o contato homossexual assusta Cristina, mas com o tempo acaba se apaixonando pela amiga, provocando uma tumultuada reviravolta em seus conceitos. O marido assiste tudo procurando o sentido dos acontecimentos e alguma lógica psicológica para a atitude da esposa.
Em ''O Efeito Urano'' Fernanda Young não utiliza uma narrativa linearidade para apresentar a história. Além de tempos alternados, duas vozes se fazem presente no livro. Uma delas é da própria Cristina procurando descrever os fatos e, principalmente, o furacão emocional para qual foi arrastada. Outra voz é de um narrador externo que deixa transparecer uma certa cumplicidade com os acontecimentos.
O sentido do romance não está em sua trama, mas na abordagem que realiza da paixão. Cristina projeta a expectativa de que aquela mulher que a seduziu é responsável pelo sentimento despertado. Ledo engano, pois em pouco tempo Helena se envolve com outra mulher, deixando Cristina recolhendo os cacos do próprio coração e do marido.
Nos romances de Fernanda Young sempre existe uma paixão começando ou terminando. Publicou seu primeiro livro, ''Vergonha dos Pés'', em 1996, seguido de ''A Sombra de Nossas Asas'', ''Carta Para Alguém Bem Perto'' e ''As Pessoas dos Livros'' todos publicados pela Objetiva. Como roteirista, trabalhou em vários filmes, entre eles ''Bossa Nova'' de Bruno Barreto. Na televisão escreveu episódios para a série ''Comédias da Vida Privada'' e atualmente é responsável pelas histórias de ''Os Normais'', da TV Globo.
Embora ''O Efeito Urano'' seja uma história de amor, ou uma história de desilusão amorosa, o sexo é renegado a um segundo plano. O vômito narrativo da personagem Cristina viaja em várias direções, sempre procurando o centro sem nunca encontrá-lo. Numa de suas falas, admite que todo ser humano é ridiculamente igual quando apaixonado. E o sexo não foge a essa regra: ''Sexo é a mediocridade por definição, pois qualquer um o faz, e igualzinho, desde o mais brilhante gênio ao mais estúpido ignorante. Somos, portanto, todos medíocres quando trepamos nada será feito que alguém já não fez antes, nada vai acontecer que já não se repetirá um milhão de vezes. Estamos presos à mediocridade pelo resto da vida.''
Pelo tema inicialmente apresentado o dedo médio, o mais libidinoso da mão o novo romance de Fernanda Young aponta para uma ousadia que acaba não levantando-se do chão. A possível ousadia permanece confinada num sofá da sala, distraída com os comerciais de televisão. Nesse sentido, é mais um livro que apresenta como o amor é a felicidade que provoca dor e, ao mesmo tempo, a dor que provoca felicidade. A vantagem estaria em sua ótica feminina.
O Efeito Urano, de Fernanda Young, Editora Objetiva, 142 páginas, R$ 22,90.


