A Paixão em cena
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quinta-feira, 29 de março de 2018
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Há 40 anos, era realizada em Londrina a primeira grande "Encenação da Paixão de Cristo", em comemoração à Semana Santa que culmina na Páscoa. Encabeçada à época pelo grupo de jovens da Igreja Nossa Senhora da Paz (região central), começou de maneira tímida em frente à própria igreja. Tamanho o sucesso, pouco tempo depois, a iniciativa daria origem ao atual "Grupo de Teatro da Paz", com elenco amador, que não demorou e levou a apresentação para o CSU (Centro Social Urbano) de Londrina, na Vila Portuguesa (região central), que até hoje é palco da apresentação. Nesta sexta-feira (30), às 20h, cerca de 450 pessoas da comunidade - todas de forma voluntária - dão continuidade ao projeto para mostrar nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, em uma apresentação de estrutura grandiosa montada ao ar livre para um público estimado em 25 mil pessoas. A encenação Paixão de Cristo é gratuita, mas os organizadores pedem que o público leve 1 quilo de alimento para ser doado a instituições beneficentes da cidade.
Durante duas horas e meia de espetáculo, os atores darão vida à trajetória do personagem mais popular do cristianismo, em uma saga que costuma emocionar os presentes. Serão mostradas passagens como o anúncio da vinda de Jesus Cristo, seu nascimento, a Santa Ceia, a Via Crucis e ressurreição. "Toda a história de Cristo é inspiradora, mas, o momento da crucificação, certamente, é o que mais mexe com o público. A fidelidade como são representadas as cenas de Jesus sendo atacado enquanto carrega a cruz e, depois, todo o sofrimento na crucificação são emocionantes", diz Ricardo Leal, que está há 17 anos no grupo e é o atual coordenador. Os preparativos, segundo ele, começaram em meados de outubro do ano passado e os ensaios ocorreram todos os sábados, desde janeiro. O custo do espetáculo está estimado em R$ 40 mil, todo pago por doações e auxílio da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina), que estuda colocar o espetáculo no calendário de turismo religioso.
Serviço:
Encenação Paixão de Cristo
Quando: Sexta-feira (30), às 20h
Onde: Centro Social Urbano (CSU) da Vila Portuguesa (rua Atílio Scudeler, 283)
Quanto: Gratuito (doação espontânea de 1 quilo de alimento)
'Cristos' de gerações diferentes

Alexandre Orsi era apenas um menino quando começou a acompanhar os pais na Igreja no ano de 1980. Depois de ver a participação dos irmãos mais velhos no grupo de teatro, não hesitou em pedir para entrar também. "Minha primeira participação foi como povo judeu, ainda criança. Neste período, ainda não compreendia muito bem o contexto histórico, apenas sentia a emoção de estar ali. Depois de alguns anos fui soldado, o bom ladrão, apóstolo João, até chegar ao papel de Jesus Cristo", conta, relembrando sua trajetória no grupo que já dura mais de 30 anos. Com exceção do papel de protagonista, todos os outros foram contra a figura de Cristo. "No início foi difícil ter de falar ou gritar coisas como "crucifixa". Por isso é preciso muita concentração e entrega na atuação, para a emoção não tomar conta", diz. Além dele, por duas vezes, as filhas, então recém-nascidas, representaram o bebê no nascimento de Jesus.
O papel de maior destaque, o de Jesus Cristo, veio com a retomada das atividades do grupo após cinco anos de paralisação. "Estava com 25 anos, mais maduro, já dava aulas de Geografia para o Ensino Médio. No primeiro momento fiquei com receio, mas assumi a responsabilidade". A experiência, de acordo com ele, foi desafiadora em todos os aspectos. "Além do fato de me apresentar diante de milhares de pessoas, representar a história Cristo fez que meu lado humano e minhas fragilidades fossem testadas em todos os momentos. Diariamente refletia, ainda que dolorosamente, sobre minhas inseguranças, limitações e fé." De acordo com ele, o reflexo para a vida, a partir de então, foi a busca para ser um instrumento de transformação social "mesmo sabendo que sou um grão de areia diante do que Jesus foi".

Provações
Apenas integrantes do grupo representam Jesus, inevitavelmente, o papel de maior destaque, apesar da importância dos demais. Em média, a cada três anos, um participante é escolhido para essa incumbência. Este ano, o jovem Reginaldo Junior, de 23 anos, é quem interpreta o líder cristão. Ele, que já foi Jesus bebê, e, desde criança atua no grupo de teatro amador, agora tem seu papel de maior responsabilidade. "Quando criança, meu sonho era ser soldado, por causa das armaduras. Passei por diversos personagens. Com o tempo, fui entendendo melhor a história e esperava ansioso para interpretar Jesus. Esse dia chegou antes do que eu imaginava e, agora, estou diante da realização de um sonho". Desde que aceitou o convite, conta que muitas coisas mudaram em sua vida. "Várias provações foram surgindo e eu precisei me aproximar ainda mais de Deus na minha espiritualidade para essa preparação. Não é só chegar lá e apresentar. A apresentação vai muito além de um espetáculo, tem a missão de evangelizar e levar uma mensagem de fé". (M.T.)


