A página em branco de Leminski
Arquivo Pessoal/Alice RuizPaulo Leminski num de seus poemas: ‘‘Poesia é a liberdade/ da minha linguagem’’Há dez anos, morria o poeta Paulo Leminski que além de saudades deixou um vácuo imenso na vida cultural brasileira
Zeca Corrêa Leite
‘‘A passagem do tempo é psicológica. Para quem é feliz ele passa rápido; para quem é triste, demora a passar’’, diz a poeta e letrista Alice Ruiz em resposta ao comentário de que ‘‘já se passaram dez anos da morte de Leminski’’. Pois hoje, 7 de junho, completa-se uma década que o poeta Paulo Leminski se foi, vitimado por cirrose hepática.
A lentidão com que o tempo se desenha para Alice deverá ser ainda mais penosa nesta semana, pois ela estará se encontrando com o jornalista Toninho Martins Vaz para uma série de depoimentos sobre o marido e escritor. ‘‘Está sendo feita uma biografia de Paulo, a pedido meu’’, disse a poeta à Folha2. ‘‘Um dia, quando me perguntarem de Paulo, direi para lerem o livro.’’
Para ela a morte levou de roldão ‘‘a última voz polêmica, radical, culturalmente provocadora em Curitiba. Ficou um buraco na vida cultural da cidade.’’ O poeta deixou num de seus poemas a afirmativa de que ‘‘poesia é a liberdade/da minha linguagem’’. Acredita Alice que os jovens escritores que o seguem, fazem o mesmo, tendo o modelo como exemplo.
O músico Rodrigão, do grupo Maxixe Machine, tem outro olhar sobre o poeta. ‘‘A falta que ele faz é evidenciada pela falta para descobrirmos os novos. A poesia travou muito mais com a sua morte; parece que tudo ficou ligado a ele’’, opina.
Se Leminski estivesse vivo, caminhando para os 55 anos de idade, talvez as pessoas estivessem mais interessadas em buscar novos autores. Através dele era o que acontecia, de alguma forma, pois bastava a sua presença para a mídia estar em torno, e até mesmo incentivando novos valores. ‘‘Leminski dava um aval a Curitiba’’, pensa Rodrigão.
Assim como despertava admiração e respeito, havia também os que não gostavam dele. Na Fundação Cultural de Curitiba existe uma relação ambivalente com o poeta, segundo afirma o músico, que por duas vezes trabalhou no Perhapiness - evento realizado anualmente em homenagem ao artista. ‘‘A Fundação não gosta da homenagem, mas é necessário que se faça, entende?’’
A instituição o tem como um patrimônio que merece ser incensado, mas por outro lado poesia não é algo que motive retorno político, na análise de Rodrigão. Ser nome de pedreira, em que pese todo o respeito em torno, seria motivo de galhofa para o poeta. ‘‘Tenho certeza que se Leminski soubesse em vida que depois de morto viraria nome de pedreira, daria muita risada.’’
Um documentário que será rodado pelo cineasta Otávio Bezerra, está em fase de captação de recursos. Conforme os resultados desse trabalho, o filme poderá ter início ainda este ano, imagina a produtora Rose Lacreta, da Olhar Feminino Produções, do Rio de Janeiro.
Ocupando-se com a leitura da obra leminskiana, Rose se diz encantada com o escritor e, com o olhar arguto dos cineastas - ‘‘neste momento estou empenhada em produção, mas sou cineasta’’ - descobriu em ‘‘Agora é que São Elas’’ boas perspectivas para adaptá-lo ao cinema.
Há uma ligação íntima entre a inquietação de Leminski com a cidade onde estava inserido, pois ambos caminhavam juntos dentro da modernidade. O filme ‘‘Pra quê Cara Feia, se na Vida Ninguém Paga Meia?’’ - título provisório retirado do fragmento de um de seus poemas - vai trabalhar justamente com a reflexão da poesia e da prosa do artista, com a transformação curitibana. Bezerra baseou-se especialmente em ‘‘Catatau’’ para dar base ao filme, que deverá contar com um co-produtor preferencialmente do Paraná. Pelo menos, este é o plano dos realizadores que querem ‘‘reconstituir o personagem com sua vida e obra’’, segundo as palavras de Rose Lacreta.
O escritor Wilson Bueno reclama não só a ausência da figura do poeta, como a do amigo que tanto lhe incentivou no início da carreira. ‘‘Bolero’s Bar’’, que Bueno lançou em 1986, veio à luz nesse tempo especialmente pelo apoio de Paulo Leminski, que se ofereceu para escrever o prefácio. Um dos raros prefácios produzidos por ele, diga-se de passagem. O título: ‘‘Blues Dance e Seus Boleros Ambíguos’’.
‘‘Dez anos se passaram, mas ainda sinto muita falta dessa pessoa que eu encontrava muito. Inclusive, alternávamos nosso espaço no jornal ‘Correio de Notícias’, na metade dos anos 80. Um dia ele escrevia, noutro dia era eu’’, lembra o cronista.
O tempo depurou a obra do poeta, e percebe-se hoje, com maior distanciamento, a importância de tudo que produziu, tanto na crítica, como na prosa ‘‘e evidentemente’’ na poesia, conforme Bueno. Nos últimos dias ele recebeu ligações de Goiás, do Ceará, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sempre com a mesma finalidade: depoimentos sobre o amigo. ‘‘Essa identificação de amizade me honra profundamente.’’

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