A padronização dos modos de ver
Rubens Pillegi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Estamos diante do paradoxo histórico que abre fronteiras através dos meios de comunicação, tornando acessível a Cultura de povos que podem ser contatados de qualquer canto do mundo. É possível desejar comprar uma estátua ritual de Taiwan hoje e em quatro, cinco dias tê-la em casa, tanto quanto vender mapas de cidades do Paraná para um cartógrafo do Paquistão, sem ao menos saber localizar esse país nos atlas geográficos. O mais provável, no entanto, é que a transação daqui para lá e de lá para cá, seja a compra de um mesmo e único produto, de marca mundial, em lojas decoradas com o mesmo motivo, em distintos pontos do mundo. Gastando o troco, quem sabe, na mesma rede de lanchonetes. Ou talvez até possa se achar, com alguma sorte, uma feira de produtos exóticos, vendendo as tais esculturas, ao lado, pasmem!, daqueles mapas de cidades. A essa hegemonia de padrão mercadológico, dá-se o nome de globalização.
Essa tentativa de nivelar os gostos e as necessidades de cada povo, tem levado até mesmo o olhar a não reconhecer mais aquilo que é próprio de seu meio, daquilo que lhe é imposto como modelo a ser seguido, muitas vezes nublando a consciência. Isso afeta não só a base das culturas expostas a esse mecanismo de mão única, modificando métodos de produção, modos políticos, língua, crença, campos de pesquisa ou manifestações sociais e artísticas, como a própria natureza à mercê desse novo ritmo alienígena.
Na arte brasileira não é diferente. Todas as mostras que tentam mostrar a cultura praticada hoje, acabam caindo nos exemplos citados acima. Sejam panorâmicas, contemporâneas, com pretensões de apresentarem a diversidade dos meios e técnicas realizados no país, mas que acabam no mesmo lugar-comum, com enfoque de um único método de seleção e qualidade, por mais extremo que sejam os casos. Na assepsia do espaço expositivo, o que é diferente transforma-se em exótico, coisa de índio, ou de negro, para inglês ver. E o resto é todo nivelado; artistas do Amazonas e de Santa Catarina fazendo do mesmo modo que já foi feito na Europa ou nos Estados Unidos.
Se podemos dizer que há intercâmbio cultural e comercial, que questões planetárias são similares em vários aspectos de nossa realidade específica e a técnica é cada vez mais acessível a todas as áreas profissionais, devemos também defender nossa singularidade diante desse caminho sem retorno, incorporando de maneira eficiente e clara as perdas e ganhos envolvidos no processo, com capacidade tanto para comprar estátuas rituais, quanto vender mapas para quem quiser, dos nossos lugares de origem.
Fragmento do Poema 20
Posso escrever os versos mais tristes esta noite / Escrever, por exemplo, A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros ao longe / O vento da noite gira no céu e canta / Posso escrever os versos mais tristes esta noite / Eu a amei, e às vezes ela também me amou / Em noites como esta eu a tive entre os meus braços / Beijei-a tantas vezes, às vezes eu também a amava / Como não ter amado os seus grandes olhos fixos? (Pablo Neruda)





