"A Outra História Americana" não inova ao abordar o racismo
São Paulo, 15 (AE) - Segundo David McKenna, roteirista de "A Outra História Americana", o objetivo do filme é mostrar que uma pessoa não nasce racista - torna-se racista por uma série de motivos e circunstâncias. Entre as circunstâncias estão os meios familiar e social. O motivo pode ser a frustração ou alguma dor muito forte.
Derek (Edward Norton, indicado para o Oscar pelo papel) reúne todas as condições para o exercício da intolerância racial. Frequenta um meio social que se julga o correto do ponto de vista étnico e um dia vê o pai, bombeiro abnegado, ser assassinado num bairro negro, onde, justamente, estava ocupado apagando um incêndio e salvando vidas. Derek passa a fazer parte de um grupo de skinheads e alcança um posto de liderança. Pode colocar em prática seu ideário "político" quando seu carro é assaltado por jovens negros. Vai parar na penitenciária e deixa, do lado de fora, um irmão que o idolatra e quer seguir seus passos. Mas, na prisão, Derek tem oportunidade de rever suas teses a respeito da vida.
Essa é, digamos assim, a planta baixa de um filme bem realizado pelo diretor Tony Kaye e bem interpretado pelo elenco. O próprio Norton, aliás, mostra que sua indicação para o Oscar de ator não foi fruto do acaso. Seu personagem tem aquilo que, no métier, se chama de curva dramática. Começa num ponto, transforma-se, evolui, chega a outro ponto no fim do caminho. Um bom trabalho, embora nada tenha de espetacular.
Isso porque sua trajetória dentro da trama deve conformar-se à tradicional simplificação imposta ao cinema comercial. É um impasse. Querem, raramente, trabalhar com temas complicados, mas não aceitam as consequências da escolha, que seria dar tratamento complexo a assuntos complexos. Racismo não é assunto consensual. Envolve um sem-número de causas e ninguém sabe direito quais se tornam as mais importantes em cada caso. Dá-se de barato que seria um produto espúrio do ressentimento ou da fobia pelo diferente ou que forneceria os bodes expiatórios ideais para situações de frustração. Ninguém explica por que esses fatores são atuantes num caso e inócuos em outros.
Enfim, cinema não é aula de sociologia, mas, pelo menos, deveria mostrar alguma coisa diferente ao espectador. "A Outra História Americana" não é exatamente um bom título, pois se trata da mesma história de sempre.





