ReproduçãoSkármeta:um romance politicamente adulto e sentimentalmente adolescenteNo ano de 1976, o escritor Antonio Skármeta deixava sua terra natal, o Chile, em busca de exílio político em Berlim. O presidente do país, o socialista Salvador Allende, havia sido deposto pelo general Augusto Pinochet. Uma multidão abandonava o Chile procurando fugir da perseguição política, da cadeia e suas torturas.
Nos primeiros meses de exílio, Skármeta escreveu dois romances, ‘‘O Carteiro e o Poeta’’ e ‘‘Não Foi Nada’’, ambos impulsionados pelas chagas do autoritarismo e pelo amargo sentimento de exílio. Tudo temperado com sutilezas poéticas. O primeiro deles, ‘‘O Carteiro e o Poeta’’ - cujo nome original era ‘‘Ardente Paciência’’ -, tornou-se um grande best seller depois de ser transformado em filme pelo cineasta inglês Michael Radford, com roteiro do próprio escritor.
O filme foi indicado para quatro Oscar, entre eles o de melhor filme em 1996. O encontro entre um humilde carteiro e o poeta chileno Pablo Neruda, arrancou emoções em platéias e leitores no mundo todo. O segundo romance, ‘‘Não Foi Nada’’, chega agora às livrarias lançado pela Editora Record. Nele, Skármeta abordava um outro lado do exílio, o ponto de vista dos filhos dos exilados políticos. Jovens e criança que deixaram seus países de origem caindo em nações desconhecidas, com outra língua e cultura.
Garotos que passaram a viver entre as memórias militantes dos pais e a necessidade de socialização com o novo ambiente. ‘‘Não Foi Nada’’ é narrado sob o ponto de vista de um garoto chileno de 14 anos de idade, Lucho, que segue com a família para Berlim fugindo da repressão de Pinochet. Num lugar onde não compreende quase nada, passa por todos os tipos de dificuldades de adaptação, ao mesmo tempo que realiza as descobertas da adolescência, da primeira namorada à primeira briga de rua.
Galáxias semelhantes - Na afirmação de Skármeta, os dois romances pertencem a uma galáxia de emoções semelhantes: ‘‘O Carteiro e o Poeta’’, como os leitores entenderam sem que o narrador precisasse explicar, se esfumava no terror da ditadura chilena, ao passo que o personagem de ‘‘Não Foi Nada’’ tinha fugido, arrastado pelos pais, para uma Europa que oferecia aos exilados os pulmões da liberdade, mas também a dor da distância.
Diz ele, no prefácio do livro:‘‘Ouvi um deles dizer, num patético limiar entre noite e madrugada, que preferia um morte certa na pátria distante àquele melancólico agonizar em idiomas incompatíveis. Despojados do seu ambiente natural, desprovidos de suas utopias, minuciosamente derrotados os emigrantes latino-americanos começaram uma militância em guetos de melancolia que muitas vezes os impediu de assumir as paixões cotidianas dos países que lhe ofereceram refúgio.’’
Skármeta mostra que os primeiros, talvez os únicos, que experimentaram a socialização e a cultura dos países para os quais fugiam, foram os jovens filhos dos exilados. ‘‘Não foi Nada’’ é apresentado com uma obra para o leitor adulto, mas talvez funcione perfeitamente para o público jovem.
O autor consegue reproduzir o universo adolescente com um linguagem adequada narrando a história a partir dos olhos e cabeça de Lucho, em seus 14 anos. Trata-se de um romance que é, ao mesmo tempo, politicamente adulto e sentimentalmente adolescente.
O título do livro nasce do apelido que os garotos alemães conferem a Lucho. Nos jogos de futebol da escola, toda vez que Lucho entrava duro no adversário, ficava berrando em espanhol ‘‘não foi nada’’. Os alemães não entendiam aquelas palavras e começaram a chamar Lucho de ‘‘nãofoinada’’.

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