A OUTRA FACE DE UMA ATRIZ
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quarta-feira, 11 de julho de 2001
André Bernardo TV Press 
Qualquer atriz daria pulos de alegria ao ser convidada para fazer uma vilã cômica como a Augusta Eugênia de Porto dos Milagres. Segundo um dos mais recorrentes clichês da tevê, as vilãs são mais interessantes de fazer porque oferecem mil e uma possibilidades de interpretação. Joana Fomm também pensa assim. Mas não deu pulos de alegria ao receber o convite do diretor Marcos Paulo. Ela parou, pensou e disse não. Em 35 anos de tevê, já perdeu a conta das vezes que deu vida a tipos intragáveis como Yolanda Pratini, de Dancin Days, e Perpétua, de Tieta. Você sabe a última vez que fiz uma personagem igual à Rita? Nunca. Achei que estava na hora de variar, justifica.
Na mesma hora, Marcos sugeriu outra personagem para a atriz: a sofrida Rita que, na verdade foi escrita originalmente para Arlete Salles. Por sugestão do diretor, Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares trocaram a escalação. Ótima idéia. Joana surpreendeu tanto fazendo a mulher de pescador que teve o espaço aumentado na trama. Os autores chegaram a criar um passado misterioso para Rita. Segundo Aguinaldo, o segredo que ela escondia em relação a Selminha Aluada, fruto de uma aventura extraconjugal, não constava na sinopse da novela. Quando fiz Tieta, as pessoas gritavam: olha o tribufu aí, gente!. Era um esculacho. Hoje, elas só faltam beijar os meus pés, gaba-se.
Quando terminou Esplendor, você disse que ainda sonhava em fazer uma vilã de verdade. Algo parecido com uma oficial nazista. O que a fez mudar de idéia?
Achei que o papel que o Marcos Paulo me ofereceu inicialmente era muito parecido com o que eu já tinha feito antes. Não queria me repetir. Sempre me chamam para este tipo de papel porque o público gosta quando faço a malvada. Quando não estou fazendo televisão, as pessoas me perguntam quando farei outra vilã. Algumas preferem as chiques, como a Yolanda. Outras, as pobretonas, como a Perpétua. Pessoalmente, não tenho preferências. Gosto é de fazer boas personagens.
Mas o público não tem protestado por você ter aceito fazer um papel tão diferente do que ele está habituado a assistir?
Quando fiz a Lúcia Gouveia em Corpo a Corpo, um garçom deixou de me atender porque disse que sabia quem eu era. Tá pensando que vai me enganar, é?. Desta vez, o público tem verdadeira adoração pela Rita. Outro dia, fui assistir à pré-estréia do filme Copacabana, da Carla Camurati, e me vi cercada por um grupo de travestis. Eles disseram que torcem pela Rita porque a têm como uma mãezona. Um deles chegou a dizer que tem vontade de dar uma boa surra na Luiza.
Você não acha que a Augusta Eugênia poderia se transformar numa nova Perpétua?
Embora os autores sejam os mesmos, não vejo muitas semelhanças entre Tieta e Porto dos Milagres. Perpétua foi uma ótima criação, dentro de um contexto perfeito de texto, elenco, direção e momento. As Perpétuas são bastante corriqueiras em algumas regiões do Brasil e Portugal. Uma personagem assim é difícil de encontrar. Qualquer tentativa de reeditá-la seria tolice.
Você já disse que nunca interpretou uma personagem parecida com a Rita. Qual foi a maior dificuldade ao criá-la?
Não foi fácil encontrar o tom da personagem. A Rita é muito diferente de tudo que já fiz até hoje. Todas as minhas personagens anteriores eram muito over. Já a Rita é muito na dela. Fala pouco, gesticula menos ainda. Por isso mesmo, tento interiorizá-la ao máximo. Mas a Rita é muito bacana. Quando o Chico descobre que ela se envolveu com outro homem, ela tem de começar do zero. É do tipo de mulher que corre atrás do que acredita.
Você consegue gravar as cenas mais dramáticas da novela sem se envolver emocionalmente com a personagem?
Quando as faço tecnicamente, sim. Mas quando deixo a sensibilidade aflorar, aí não tem jeito. É pancada mesmo. Algumas cenas são fortes, desgastantes. No dia em que gravei a cena da briga com o Chico, o Tonico me ligou para saber como eu estava. Exaurida, respondi. Eu também, ele disse. Fiquei prostrada a noite toda.


