A OUTRA FACE DE MILANI
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de março de 2001
Alexandre PalmarDe Foz do Iguaçu 
Famoso por interpretar personagens humorísticos, Francisco Milani está completando meio século com uma história pouco conhecida pelo público. Desde os anos 50, o ator trabalha pela valorização da cultura popular brasileira, sem poupar críticas aos produtores culturais e aos consumidores deste produto.
O mais recente capítulo dessa trajetória aconteceu no debate Cultura e Resistência, realizado na última quarta-feira, no campus de Foz do Iguaçu da Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste), quando ele mostrou a outra face do profissional que interpreta Saraiva, do programa Zorra Total, da Rede Globo.
O cidadão Francisco Milani, como se apresentou logo no começo da discussão, em Foz, com a participação de mais de 500 pessoas, fez críticas contundentes à produção cultural da indústria do entretenimento que, conforme ele, tem na televisão e nas multinacionais fonográficas seus principais protagonistas.
Dentro da destruição da cultura a mídia televisiva é fundamental nesse processo, comentou no começo do evento Sou o que soa. Sou o que sangra. Sou o que sôo, promovido pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), para receber os calouros deste ano.
Questionado sobre o conteúdo da televisão na cultura de uma nação, Francisco Milani disse não ser contra a televisão, mas a forma como ela é produzida hoje a torna um braço do poder econômico para quebrar as raízes da cultura brasileira e assim destruir nossa resistência diante da economia globalizada imposta ao Brasil.
- Isso acontece hoje através do funk, do punk, da invasão do cinema norte-americano. O que foi feito com o carnaval carioca? O ator principal, que era o negro, hoje empurra os carros dos destaques das escolas, enquanto a Grande Rio chega ao cúmulo de contratar uma pessoa da Nasa para fazer um vôo no Sambódromo. Um cara que voa não tem nada a ver com o carnaval, cuja base é o samba no pé.
Ele também não poupa críticas à estrutura das novelas, que nada retratam da nossa realidade social. Como dizia Plínio Marcos, em se tratando de novela quem viu a primeira, viu todas, não precisa ver mais nenhuma, diz.
Na opinião do ator, os intervalos comerciais entre os programas televisivos completam a estratégia das redes de TV para incentivar o consumo e, com isso deixar o telespectador sem reação.
- Esse sistema deixa o ser humano sem referência cultural. O brasileiro, por sua vez, sem sua base cultural, deixa de lado o patriotismo, ficando à mercê das imposições dos países de Primeiro Mundo, sejam elas econômicas, culturais, ou de outra natureza. Quer algo mais cruel que a geladeira onde cabem mais produtos. Você anuncia geladeira para um povo que não tem nada para comer, critica.
Francisco Milani também não fugiu ao ser indagado sobre a posição de ter opiniões contrárias à indústria cultural e trabalhar na Rede Globo, que atua no topo dessa indústria, como ele próprio define. Trabalho porque sou um ator. É a minha profissão. É mais fácil mudar alguma coisa quando você está dentro dela, respondeu, frisando que minha função é inquietar a sociedade.
Em seguida, explicou que poderia receber milhares de reais para fazer shows, porém continua a fazer aquilo em que acredita. Faço palestras sobre aquela época rica da resistência brasileira, disse, respaldado pela militância no Centro de Cultura Popular (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e pelo período em que esteve na presidência da Rio Arte e Fundação Rio, autarquias da Secretaria Municipal de Cultura, do Rio de Janeiro.
O ator, locutor, narrador, dublador e diretor apontou a juventude brasileira como alavanca para interferir na cultura do Brasil. A organização em partidos, sindicatos, associações de bairros, de classe, de condomínios, foram indicados como principais mecanismos para a valorização da identidade nacional. Segundo ele, dificilmente a cultura, por si só, vai chegar ao fim do poço para depois ser resgatada, transformada.
- Existe uma apatia dos jovens. Então, a gente se preocupa com isso, militantes de partidos de esquerda tentam resgatar a força da juventude brasileira. Queremos trazer pessoas para o debate. Uma das alternativas para a transformação é mudar o sistema educacional do País, mudar os currículos, mudar tudo, completou o ex-vereador pelo PCdoB no Rio de Janeiro (legislatura de 1989 a 1992) e candidato a vice-prefeito do Rio na chapa encabeçada por Benedita da Silva (PT), na eleição passada.


