Famoso por interpretar personagens humorísticos, Francisco Milani está completando meio século com uma história pouco conhecida pelo público. Desde os anos 50, o ator trabalha pela valorização da cultura popular brasileira, sem poupar críticas aos produtores culturais e aos consumidores deste produto.
O mais recente capítulo dessa trajetória aconteceu no debate ‘‘Cultura e Resistência’’, realizado na última quarta-feira, no campus de Foz do Iguaçu da Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste), quando ele mostrou a outra face do profissional que interpreta ‘‘Saraiva’’, do programa ‘‘Zorra Total’’, da Rede Globo.
O cidadão Francisco Milani, como se apresentou logo no começo da discussão, em Foz, com a participação de mais de 500 pessoas, fez críticas contundentes ‘‘à produção cultural da indústria do entretenimento’’ que, conforme ele, tem na televisão e nas multinacionais fonográficas seus principais protagonistas.
‘‘Dentro da destruição da cultura a mídia televisiva é fundamental nesse processo’’, comentou no começo do evento ‘‘Sou o que soa. Sou o que sangra. Sou o que sôo’’, promovido pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), para receber os calouros deste ano.
Questionado sobre o conteúdo da televisão na cultura de uma nação, Francisco Milani disse não ser contra a televisão, mas a forma como ela é produzida hoje a torna um braço do poder econômico para quebrar as raízes da cultura brasileira e assim ‘‘destruir nossa resistência diante da economia globalizada imposta ao Brasil’’.
- Isso acontece hoje através do funk, do punk, da invasão do cinema norte-americano. O que foi feito com o carnaval carioca? O ator principal, que era o negro, hoje empurra os carros dos destaques das escolas, enquanto a Grande Rio chega ao cúmulo de contratar uma pessoa da Nasa para fazer um vôo no Sambódromo. Um cara que voa não tem nada a ver com o carnaval, cuja base é o samba no pé.
Ele também não poupa críticas à estrutura das novelas, que nada retratam da nossa realidade social. ‘‘Como dizia Plínio Marcos, em se tratando de novela quem viu a primeira, viu todas, não precisa ver mais nenhuma’’, diz.
Na opinião do ator, os intervalos comerciais entre os programas televisivos completam a estratégia das redes de TV para incentivar o consumo e, com isso deixar o telespectador sem reação.
- Esse sistema deixa o ser humano sem referência cultural. O brasileiro, por sua vez, sem sua base cultural, deixa de lado o patriotismo, ficando à mercê das imposições dos países de Primeiro Mundo, sejam elas econômicas, culturais, ou de outra natureza. Quer algo mais cruel que a geladeira onde cabem mais produtos. Você anuncia geladeira para um povo que não tem nada para comer’’, critica.
Francisco Milani também não fugiu ao ser indagado sobre a posição de ter opiniões contrárias à indústria cultural e trabalhar na Rede Globo, que atua no topo dessa indústria, como ele próprio define. ‘‘Trabalho porque sou um ator. É a minha profissão. É mais fácil mudar alguma coisa quando você está dentro dela’’, respondeu, frisando que ‘‘minha função é inquietar a sociedade’’.
Em seguida, explicou que poderia receber milhares de reais para fazer shows, porém continua a fazer aquilo em que acredita. ‘‘Faço palestras sobre aquela época rica da resistência brasileira’’, disse, respaldado pela militância no Centro de Cultura Popular (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e pelo período em que esteve na presidência da Rio Arte e Fundação Rio, autarquias da Secretaria Municipal de Cultura, do Rio de Janeiro.
O ator, locutor, narrador, dublador e diretor apontou a juventude brasileira como alavanca para interferir na cultura do Brasil. A organização em partidos, sindicatos, associações de bairros, de classe, de condomínios, foram indicados como principais mecanismos para a valorização da identidade nacional. Segundo ele, dificilmente a cultura, por si só, vai chegar ao fim do poço para depois ser resgatada, transformada.
- Existe uma apatia dos jovens. Então, a gente se preocupa com isso, militantes de partidos de esquerda tentam resgatar a força da juventude brasileira. Queremos trazer pessoas para o debate. Uma das alternativas para a transformação é mudar o sistema educacional do País, mudar os currículos, mudar tudo’’, completou o ex-vereador pelo PCdoB no Rio de Janeiro (legislatura de 1989 a 1992) e candidato a vice-prefeito do Rio na chapa encabeçada por Benedita da Silva (PT), na eleição passada.

mockup