O provocador Antônio Abujamra lembrou-se de Tom Zé no último domingo, em seu programa na TV Cultura, ao perguntar a Walter Franco se os norte-americanos teriam também que ''descobrí-lo'' para ele finalmente merecer o aplauso nacional.
Franco, a exemplo do baiano de Irará, já foi estigmatizado de ''maldito'' e hoje quer distância do rótulo que sempre o perseguiu. Aos 56 anos, ele está voltando ao mercado fonográfico com o álbum ''Tutano'', lançado pelo selo independente YB Music com produção de Constant Papineau (ex-músico da banda de rock setentista O Peso) .
O disco quebra um intervalo de 19 anos sem gravar, período em que o artista paulistano não parou de compor e nem de fazer shows, como revela na entrevista abaixo. ''Tutano'' traz 14 faixas, entre as quais 12 inéditas e duas regravações as polêmicas ''Cabeça'' (1972) e ''Muito Tudo'' (1975).
O repertório mantém-se fiel aos princípios estéticos do começo da carreira. A poética do artista revela ainda ecos do concretismo ao mesmo tempo em que as melodias circulares exibem serenidade minimalista. A veia rock manifesta-se em crescendos ''noise'', disparando instrumental ruidoso em canções como ''Quem Puxa aos Seus não Degenera'' e ''Ai, Essa Mulher''.
Não há traços anacrônicos, mas um conjunto de elementos que poderia filiá-lo à chamada vanguarda paulistana, o que acaba demonstrando pelo avesso sua influência sobre a geração que o sucedeu na seara da ousadia. O álbum, quinto na trajetória do compositor, inclui ''Zen'', música participante do Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo no ano passado.
Os festivais, aliás, foram marcantes na construção da imagem do artista. Quando cantou ''Cabeça'' no Festival Internacional da Canção em 1972, recebeu uma das mais impagáveis vaias da história da música brasileira. Gerou idêntico tumulto quando apresentou ''Muito Tudo'' no Festival Abertura, em 1975, sentando-se no palco do Teatro Municipal de São Paulo para jogar dados com o maestro Tony Osanah.
As duas músicas são recapituladas em ''Tutano'' com novos arranjos. Franco assina todas as faixas dividindo parcerias com Arnaldo Antunes (''Nasça''), José Carlos Costa Neto (''Totem'') e Cristina Villaboim (''Zen'' e ''Acerto com a Natureza''). Em ''Intradução'', ele musicou um poema de Augusto de Campos adaptado do texto do trovador Bernart de Ventadorn.
A canção é interpretada ao violão por seu filho Diogo Franco. O elenco de participações inclui ainda do erudito Livio Tragtenberg aos eletrônicos Anvil FX e Apollo 9 passando ainda pelos músicos instrumentais Guga Stroeter e Maurício Tagliari e o expoente do samba-rock João Parahyba. A seguir, leia trechos da entrevista que Walter Franco concedeu à Folha 2 por telefone.

Qual a explicação para sua longa ausência do mercado fonográfico? Nunca estive preso à formula de um disco por ano. Eu sempre afirmei que minha proposta era para médio e longo prazo. Mas não esperava que fosse demorar tanto (risos). A responsabilidade de minha ausência do mercado é da indústria, que nivela a linguagem por baixo e subestima a sensibilidade do público. Pertenço a uma geração de artistas que sempre buscou uma linguagem fora dos padrões do retorno fácil. Se nós tivemos que driblar a censura política, hoje enfrentamos a censura estética. Por sinal, Londrina é a cidade de Arrigo Barnabé, um artista de uma geração posterior à minha mas que também sempre foi pautado pela busca da ousadia. Nunca estive ligado às regras da indústria. Seria fácil se eu me propusse a entrar no jogo atual. Mas aí teria minha proposta descaracterizada. E o que sempre procurei preservar foi a coerência. Meu álbum ''Revolver'' (1975) é considerado o disco brasileiro mais radical de todos os tempos. Eu continuo na mesma linha.

Você fez shows durante esses 18 anos?
Minha carreira não dependeu de lançamento de discos. Minha imagem sobreviveu a isso. Consegui viver de música fazendo shows para públicos cada vez mais afinados com minha proposta estética. De repente, encontrei duas gerações na platéia: a minha e a de meus filhos. Percebi que existe uma mídia alternativa e uma carência muito grande de propostas ousadas. Durante esse período, houve também os relançamentos de meus discos e as referências de outros artistas a meu trabalho. Caetano sempre se referiu a mim. Leila Pinheiro já afirmou que seu maior sucesso é a canção de minha autoria ''Serra do Luar''.

Por que você decidiu regravar ''Cabeça'' e ''Muito Tudo''?
Quis mostrar ''Cabeça'' por causa da polêmica que provocou na época e pela sua contemporaneidade. Já ''Muito Tudo'' só havia sido registrada no disco do Festival Abertura, no qual ficou em terceiro lugar também criando muita polêmica. A música tinha arranjo do maestro Júlio Medaglia, fazia referência a Mallarmé e foi apresentada com um jogo de dados no palco.

Como foi participar do Festival da Globo no ano passado?
Eu queria mostrar o meu trabalho atual, queria que ele fosse julgado. Não queria ficar vivendo do passado. Não queria viver numa redoma negando todo contexto em volta. ''Zen'' é parte daquilo que estou fazendo agora. Minhas músicas sempre estiveram ligadas a momentos históricos. ''Cabeça'' revela a densidade dos anos 70, ''Vela Aberta'' é executada até hoje, assim como ''Coração Tranquilo'' que fala para ter ''a espinha ereta / a mente quieta / e o coração tranquilo''. Esta antecipou a holística numa linguagem musical que não é o muzak que se ouve hoje em dia. Minhas composições mostram a busca incessante pelo entendimento, pela interação e pelo crescimento interior. São experiências que busco no meu dia-a-dia e coloco no trabalho.

O seu filho Diogo canta e toca violão na faixa ''Intradução''. É o primeiro registro dele?
É a primeira experiência em disco. Foi uma participação que nasceu espontaneamente e o resultado ficou interessante. Ele estuda violão erudito na Universidade Livre de Música de São Paulo e está seguindo os meus passos. Mas não houve nenhuma ingerência minha. Ele se aproximou da música por intuição. Assim como meu outro filho, Tiago, que assina o design da capa. Ele se inspirou no concretismo sem mergulhar em grandes pesquisas. É tudo na base da intuição.

Suas composições já foram definidas como ''mantras pop''. Você gosta da expressão?
Acho interessante. Gosto quando as definições e rótulos não são colocados de uma forma superficial. Às vezes usam a palavra ''maldito'' assim. Nos anos 70, os malditos eram os artistas ousados, que tinham uma proposta de linguagem estética renovadora e que num certo momento chegaram a despertar o interesse das grandes gravadoras. Hoje em dia, a expressão ''maldito'' virou clichê, algo pejorativo que pode prejudicar artistas coerentes como Jorge Mautner, Jards Macalé e Itamar Assumpção. É como se nós não tivéssemos sido anistiados depois de todos esses anos.

Como foi trabalhar com o DJ e produtor mineiro Anvil FX? O que você acha da incorporação crescente da eletrônica pela MPB?
Meu envolvimento com a tecnologia é antigo, faz parte do meu imaginário. Tanto no disco branco (''Ou Não, de 1973) como no ''Revolver'' (1975), eu já me aproximava dos recursos eletrônicos utilizando-os dentro das limitações da época. Os dois discos foram gravados no Eldorado, que era o melhor estúdio do país. Eu, juntamente com os maetros Julio Medaglia e Rogério Duprat, tivemos que colocar a imaginação para funcionar. Mas desde aquela época sempre parti da idéia de que o uso da técnica deve estar a serviço da imaginação e não o contrário. No novo disco, o produtor (Constant Papineanu) teve o cuidado de dosar essas misturas com a colaboração de Anvil FX. Procuramos manter a essência da música trabalhando os arranjos de uma forma quase artesanal.

mockup