A OUSADIA EM CARTAZ
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de agosto de 2000
Francelino França De Londrina 
O projeto mais ousado da carreira do dramaturgo londrinense Mário Bortolotto está reverberando na paulicéia. Há duas semanas, foi dada a largada para uma autêntica maratona teatral, com 14 peças levadas à cena no Centro Cultural São Paulo. O universo ficcional do dramaturgo dá visibilidade à escória da sociedade. Bortolotto dá voz aos desiludidos, solitários, ladrões, psicopatas, vagabundos, inválidos sentimentais, sequestradores, politicamente incorretos, só para citar alguns.
Para dar vida à marginália, a Mostra está alocada num local apropriado, um porão. Bortolotto convocou 36 atores, um batalhão. O ator gaúcho Jairo Matos, 20 anos de estrada, pegou carona no conturbado mundo underground de Mário Bortolotto e está com todo fôlego ao abraçar a maratona. Como ator, sobe ao palco em cinco diferentes montagens (Medusa de Rayban, É Bonita a Vista Aqui em Cima, Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, Fuck Yoy, Baby, À Queima-Roupa). Matos assina a direção de outras três peças (Cocoonings, Fuck You Baby e Tanto Faz).
Em entrevista à Folha2, Jairo Matos conta que o nome de Mário Bortolotto foi aparecendo homeopaticamente. Primeiro, o diretor Fauzi Arap comentou com ele sobre um dramaturgo do Paraná. Depois, leu uma crítica de Maria Lúcia Pereira num jornal de São Paulo. Amigos em comum foram levando informações sobre as peças de Mário aos ouvidos de Jairo Matos. Vocês são parecidos no jeito de entender teatro, me diziam os amigos. Até o dia que nos conhecemos, fomos tomar cerveja e conversamos a noite toda, relembra o ator. Mergulhar na dramaturgia marginal de Bortolotto foi apenas consequência desse encontro. O convite para a participação na Mostra pintou logo a seguir.
Jairo Matos ressalta a importância de um projeto desse calibre, num período de atrofiamento da mídia paulistana em relação ao teatro, supervalorizando a TV. Segundo ele, cada vez mais nos jornais há espaço para entretenimento, ao mesmo tempo em que percebe-se um achatamento do espaço para teatro. Pelos jornais, não se sabe quase nada do que acontece no teatro em São Paulo. Hoje, temos em cartaz cerca de 100 produções adultas e 80 infantis, esclarece.
As montagens agraciadas com reportagem e crítica nos cadernos culturais são poucas. Os grupos com recursos, recorrem aos anúncios publicitários. Caso contrário, não aparecem nos jornais. Por isso, fazer teatro em São Paulo, ganha ares de subversão.
O ator analisa acidamente esse achatamento do espaço da mídia em relação ao teatro, afirmando que existe uma espécie de censura, sem conseguir identificar de onde ela vem. Fazer teatro sem patrocínio e dinheiro é uma forma de resistência. Nossa força recai sobre o boca-a-boca, prossegue.
A maratona teve sua estréia no dia 18 de julho, período suficiente para perceber a reação superpositiva da classe teatral e, principalmente, do público. Dos colegas, Jairo Matos vem recebendo telefonemas parabenizando pela iniciativa. Sinal de que o projeto está se solidificando. O público marca presença e volta. Afinal, o universo ficcional de Bortolotto permite esse retorno. O Centro Cultural São Paulo é frequentado por um público heterogêneo. Todas as tribos circulam diariamente pelo local, espaço ideal para o boca-a-boca fermentar. O preço acessível dos ingressos (R$ 5,00 e R$ 0,75 em dias promocionais) é um atrativo e tanto.
A arte dramática de Mário Bortolotto é uma espécie de estandarte da cultura beatnik, que se caracteriza pela contestação à moral vigente, à sociedade de consumo e aos valores tradicionais. Esse foi um dos pontos que atraiu Matos. Acho cativante também como o Mário lida com o contemporâneo de forma ácida e cáustica, alfinetando coisas que frequentam nossas casas e não nos damos conta. Em suas peças, as cenas se desenvolvem com rapidez, conclui.
Outro ponto detectado na carpintaria dramatúrgica de Mário Bortolotto é que ele consegue despertar o interesse do público daquilo que está sendo dito e o que não está sendo dito, mas que paira no ar.


