Claro que o alívio foi geral. Principalmente para os financistas da indústria, atormentados pelas cólicas por conta, ou justamente pelas contas, dos ricos negócios paralisados que os roteiristas em greve resolveram enfiar pela Fenda de San Francisco abaixo nos últimos três meses, abalando a mesa dos executivos.
  Agora, com a recente resolução negociada para o impasse e a imediata retomada da produção para cinema e vídeo, de novo o sol é para todos em Hollywood. E o Oscar poderá finalmente chegar às mãos dos premiados na noite de gala do dia 24, nada fazendo lembrar o tosco, quase mambembe anúncio dos vencedores do Globo de Ouro.
  Ao completar 80 anos daqui a uma semana, a estatueta dourada celebra a força da terceira idade. Em vez de títulos frouxos e frívolos, de bom-mocismo anódino e da complacência, uma seleção provocante, afiada, artisticamente sintonizada com seu tempo e tematicamente questionadora, diversa, responsável.
  Claro que Hollywood segue sendo Hollywood, a meca dos tapetes vermelhos, das grandes galas e das listas das belas mais bem ou piores vestidas. Tudo isto vai se repetir no próximo domingo. Mas ventos progressistas sopram com mais freqüência e mais fortes, varrendo o pó e o mofo do conservadorismo. Claro, há anos em que o colégio eleitoral dá um passo atrás, mas esta postura imobilista é cada vez mais rara.
  Não é tempo para filmes levianos. Esta foi a mensagem clara que os votantes enviaram ao eleger os nominados. Os candidatos a melhor filme incluem os favoritos ‘‘Onde os Fracos Não Têm Vez’’, poderoso drama existencial lançado em Londrina no fim de semana; o sensível e muito crítico ‘‘Juno’’, ainda em exibição na cidade e única comédia desta lista; e os inéditos por aqui ‘‘Sangue Negro’’, com seu retrato crítico e amargo de empreendedorismo, ‘‘Conduta de Risco’’, tratado sobre (a falta de) ética, e ‘‘Desejo e Reparação’’, sobre atitudes impensadas, (ir) responsabilidades e conseqüências.
  Quem se incomodou com este panorama multifacetado foi o exibidor brasileiro, apanhado no contrapé diante de obras desconcertantes, de duvidoso apelo para as chamadas grandes platéias. Tanto é verdade que certos títulos lançados no País antes do anúncio das nominações somente estão sendo programados nestas semanas que antecedem a premiação, e apenas por causa do sempre indiscutível magnetismo da estatueta.
  Pelo conjunto da obra, este ano valerá a pena ficar as três horas e pico diante da tevê. Quatro dos diretores de candidatos a melhor filme disputam o Oscar da categoria: Tony Gilroy (Conduta de Risco), Paul Thomas Anderson (Sangue Negro), Jason Reitman (Juno) e os irmãos Joel e Ethan Cohen. Ficou de fora o diretor de Desejo e Reparação, Joe Wright, e em seu lugar o indicado, com muitos méritos, foi Julian Schnabel, por ‘‘O Escafandro e a Borboleta’’.
  Reparando melhor nestes filmes e nestes nomes, já se sabe que o Oscar deixou uns tantos ganhadores e outros tantos perdedores. A fraternidade Coen, até então apenas com uma estatueta pelo roteiro de ‘‘Fargo’’, colecionou oito indicações. E Paul Thomas Anderson, somente indicado pelos roteiros de ‘‘Magnólia’’ e ‘‘Boogie Nights’’, agora uniu-se aos ungidos e concorre em três categorias principais por ‘‘Sangue Negro’’, outro com oito indicações.
  Ao contrário, ficaram em segundo plano Tim Burton (‘‘Sweeney Todd’’, somente três nominações), Ridley Scott (‘‘Gangster’’, com duas), Mike Nichols ( ‘‘Jogos de Poder’’, apenas uma) e Sean Penn (‘‘Na Natureza Selvagem’’ recebeu duas). Entre as grandes companhias produtoras, a Miramax comemora suas 21 indicações, a Paramount Vantage idem (19) e a Warner (14).
  No plano individual, os destaques foram Cate Blanchett, que corre em duas raias, a de melhor atriz (‘‘Elizabeth: A Idade de Ouro’’) e melhor coadjuvante (‘‘Não Estou Lᒒ); outro que brilha é o talentoso fotógrafo inglês Roger Deakins, concorrendo por ‘‘Onde os Fracos Não Têm Vez’’ e ‘‘O Assassinato de Jessé James pelo Covarde Robert ford’’.
  Quem sai fortalecido desta octogésima edição do prêmio é o cinema europeu. Além da impressionante quantidade de candidaturas inglesas, também os franceses tiveram quatro nominações por ‘‘O Escafandro e a Borboleta’’, três por ‘‘La Vie en Rose’’, um par de curtas metragens e a presença do longa ‘‘Persépolis’’ na categoria de melhor longa de animação. Javier Bardem, aposta mais forte para melhor coadjuvante, e o compositor Alberto Iglesias fazem a dobradinha espanhola.
  Para se ter uma idéia da rendição da Academia à globalização e à discussão da contemporaneidade, somente três das dez atrizes nominadas são nascidas nos EUA, enquanto que três dos cinco longas documentários em disputa tratam da presença das tropas de Bush no Afeganistão e no Iraque.

mockup