As revoltas não acontecem apenas no espaço exterior aos corpos, mas também no interior dos corpos. Num lugar onde os pensamentos correm em desespero, trombando com as paredes da realidade, em busca da clareza da existência. São revoltas silenciosas que quando deslocadas para o campo literário produzem obras reveladoras.
  ‘‘Os Cus de Judas’’, romance do escritor português António Lobo Antunes, é uma dessa obras. Percorrendo os corredores do pensamento e das sensações internas, mostra o narrador desfiando uma cadeia de delírios ordenados pela sede de se livrar do peso da existência. Inserido num conflito externo, intensifica um conflito interno como tentativa suportar o sofrimento.
  ‘‘Os Cus de Judas’’ está sendo publicado no Brasil pela Editora Objetiva que acaba de adquirir os direitos de publicação de todos os romances de Lobo Antunes, inclusive o inédito ‘‘Boas Tardes às Coisas Aqui Embaixo’’. Embora pouco conhecido do grande público, Lobo é um dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Recluso, é autor de 15 livros onde a frustração, bem como a imobilidade, diante da existência e da possibilidade do amor ocupam lugar de destaque.
  Publicado originalmente 1979, ‘‘Os Cus de Judas’’ é baseado na experiência vivida pelo escritor quando foi obrigado a servir como soldado – e como médico – na guerra de Portugal contra a independência de Angola na década de 60. Embora geralmente seja encarado como um retrato sombrio do conflito, o romance está muito além de um panorama de guerra ou abordagem política. Segue um caminho muito mais sutil onde a narrativa extrapola, em muito, esses fatores.
  A obra não apresenta uma história propriamente dita, característica notável nos romances de Lobo Antunes. Apresenta o estado de espírito e mental em processo de delírio de um homem diante da situação que o sufoca. Como não possui armas para se livrar do tormento da guerra, retira-se para seus pensamentos particulares como se isolasse numa ilha onde vida e morte brigam pelo mesmo espaço.
  A narrativa percorre o delírio plenamente articulado, onde passado e presente, sensações e experiências se cruzam na malha da abstração. O narrador é um médico do exército português, próximo da loucura, tratando de feridos, costurando mutilados e despachando mortos. A atmosfera própria de toda e qualquer guerra, entre sangue e sofrimento.
  Para sair dessa atmosfera angustiante e torturante, ele desfia lembranças amorosas, tanto físicas como emocionais, como se fosse um tecido para o entendimento da existência. O terrível impasse é ele perceber, praticamente desde o começo, que tudo está fadado ao fracasso. Qualquer tipo de expectativa de salvação, seja pelo amor ou dor, esbarrará em profunda e crua frustração.
  Nesse contexto, a revolta, tanto externa como interna, torna-se o combustível incendiário da razão. E uma poética alucinada pela violência da realidade escancara as janelas do ‘‘mostruoso esqueleto da amargura’’. Poética que não está interessada em nenhum juízo moral, apenas abrir o corpo com o bisturi e revelar as entranhas ao sol.
  António Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, onde fez a faculdade de medicina especializando em psiquiatria. Exerceu a profissão de médico e escritor paralelamente até 1985, quando abandonou definitivamente a medicina para se dedicar exclusivamente à literatura. Além de ‘‘Os Cus de Judas’’, possui outros dois romances já publicados no Brasil, ‘‘O Manual dos Inquisitores’’ e ‘‘A Ordem Natural das Coisas’’, ambos pela Editora Rocco.

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