São Paulo, 04 (AE) - Dizia-se (no passado, note bem) que São Paulo era o túmulo do samba. Podemos acrescentar, agora, outro epíteto, igualmente desolador: somos, em comparação com o Rio, o túmulo da ópera. Pois, enquanto os paulistanos estão carentes de montagens líricas decentes, os cariocas podem assistir a uma notável produção do "Nabucco", de Verdi (ainda em cartaz no Municipal do Rio), com bons cantores (nenhuma estrela de máxima grandeza e cachê, mas honestos e talentosos), uma orquestra digna e em sintonia com essas vozes, uma encenação digna de Iacov Hillel (sim, um paulista). Confessemos: o nosso Municipal não seria (como não foi) capaz de tal feito, por mais dinheiro que desembolsasse em solistas importados e cenários emprestados. E, acentuando o milagre carioca, tudo isso foi feito com o mais improvável dos materiais: "Nabucco", o operão à moda antiga. Assim, mesmo que a mise-en-scne não seja um primor de criatividade (ou seja, é tradicional, com hebreus e assírios barbudos em templos de pedra), deixa de lado a imbecilidade do libreto para dar livre voz à bela música de Verdi. Notável como Hillel venceu o tédio desse dramalhão, dando movimento contínuo ao coro (em algumas cenas, eles literalmente pulsam), a peça-chave da ópera, e desprezando excesso de adereços que transmutariam os Jardins da Babilônia em alegoria de escola de samba com facilidade.
Não, em vez disso, apenas as paredes nuas de pedra e uma luz intensa, quente como o deserto em que a história se passa. Nada foge ao esperado e, ainda assim, ninguém boceja ou se remexe na cadeira ao longo dos quatro atos. Pelo contrário: em muitas cenas (como no celebrado coro dos cativos hebreus, o Va Pensiero), o público, como nos tempos de Verdi, delira, como se ouvisse tudo aquilo pela primeira vez. Bravos a cenógrafo e diretor. Por entender que o tradicional pede economia, pois já é excessivo em si. Belas interpretações - Os cantores? Bem, o destaque é a Abigaille da americana Susan Stacey, uma ave canora com um fole no peito, capaz de dar conta das enlouquecidas coloraturas e constantes variações de registro (do grave ao agudo) pedidas pelo papel. Depois dela, a chilena Mariselle Martinez, uma Fenena delicada e de interpretação sutil e bela. O brasileiro Ricardo Tutmann, Ismael, é o seu oposto, mas isso não é falta de virtude; pelo contrário, sua paixão em cada ataque e a voz de tenor segura são bons atributos (deve ser um excelente Duque de Mântua).
Giancarlo Pasquetto é um nobre "Nabucco", com a autoridade suficiente para a parte e a gentileza necessária para quando se reduz, de monarca assírio, a um daqueles infelizes pais verdianos. Carlo Striuli foi a decepção, um Zaccaria quase afônico, um horror, pois o personagem passa a ópera a duelar com o monstruoso coro. Que, por sinal, merece, como o do Municipal paulista, os aplausos sinceros que ganhou em cena. Louve-se ainda Maurício Luz, voz brilhante mesmo no pequeno papel de sacerdote de Baal. Para piorar a vergonha de São Paulo, o controle e o talento da Sinfônica Municipal carioca, regida (em tempos rápidos, a ponto de fazer cantores ficar perdidos no Ato I) por Reinaldo Censabella.
Precisa, sopros impressionantes, cordas doces (e metais algo retumbantes em demasia), é um instrumento precioso para acompanhar vozes. Fica, então, a pergunta: se o Rio consegue, Buenos Aires faz, o Chile também, etc., por que São Paulo não tem uma temporada lírica à altura das suas pretensões de metrópole cultural da América Latina? Somos muitos arrogantes ou temos uma administração desastrosa no Municipal? Perguntas importantes a fazer enquanto se pensa no conselho desta crítica (indicado aos pouquíssimo privilegiados, é claro e infelizmente): quer ouvir boas óperas? Vá ao Rio.

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