‘‘As pessoas acham que não vão entender nada. Quantas vezes a gente diz que não gosta de uma coisa sem conhecê-la? Com a ópera é assim. Tudo porque estamos desacostumados. Mas basta experimentar. A ópera é um vício.’’ A opinião é do diretor musical de ‘‘Carmen’’, Abel Rocha, que falou à Folha2 sobre o público de ópera hoje, no Brasil.
Para ele, a ópera nunca foi coisa de elite. ‘‘Depois do século 18, o primeiro espetáculo de ingresso vendido foi de ópera, que sempre teve um apelo popular. E até o começo deste século foi assim’’, lembra.
Mas estes espetáculos ainda são mais comuns nos grandes centros. Abel explica que a cidade de São Paulo, particularmente, tem um bom público. ‘‘E este público já tem suas características: além da idade das pessoas, mais avançada, existe o hábito de assistir a apresentações de ópera. Queremos criar um público novo. Por isso, a ópera de bolso é uma opção para atrair também esse outro público.’’ A intenção é recuperar a imagem da ópera, que já foi considerada uma ‘‘novela das oito’’ antigamente. ‘‘Todo mundo assistia. E isso pode voltar a ser assim’’, espera.
Abel diz que está começando em São Paulo o projeto de um Teatro de Ópera de Câmara (teatro de repertório com elenco de solistas fixo). ‘‘Estamos em fase de seleção de elenco. Faltam ainda alguns patrocínios, mas temos a previsão de estrear duas óperas em novembro’’, conta.
Esta idéia surgiu quando Abel Rocha era regente do Teatro Municipal de São Paulo e resolveu buscar novas experiências fora do País. De 1990 a 1992, trabalhou no Teatro de Ópera do Reno, em Dusselfdorf, na Alemanha. ‘‘Lá os grandes teatros chegam a ter 25 óperas em cartaz. Quis ver como funcionava isso e criar aqui no Brasil uma coisa parecida.’’
Agora, com o projeto em andamento, a estratégia é conscientizar o público. Abel comenta que existem lugares onde as pessoas nunca assistiram a uma ópera. ‘‘Quando vão, ficam entusiasmadas porque percebem que já ouviram aquilo em algum lugar.’’
Alguns fatores podem ter dificultado o acesso das pessoas à ópera. Abel conta que antigamente as óperas, em geral, eram cantadas em várias línguas. A partir do século 19, passaram a ser cantadas na língua de cada país, por causa do custo das produções. ‘‘E isso afastou um pouco o público. Mas é fácil recuperar. A ópera é muito forte, senão não estaria aí há 200, 300 anos.’’
Outro motivo que pode amedrontar o espectador é a suntuosidade. ‘‘A ópera é um grande circo no qual a gente vai para se divertir. E vai entender a história, seja pela música ou pela encenação. Existem vários caminhos para facilitar esse entendimento. A única barreira do público é não ir à ópera’’, afirma. (J.S.)

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