Em seus primórdios – ágrafos –, poesia era feita para ser cantada. Nos tempos de Homero, o rapsodo, só se falava e cantava. Da fala/canto ao código da fala – a escrita –, um longo percurso. A instauração do código instaura também uma cisão: poesia e canto dissociam-se. A poesia adquire foros de literatura. Permanece o canto nos domínios da oralidade. Não isento de poesia, porém distante da poesia que os livros se encarregarão de preservar e mumificar. À canção – fruto popular –, uma poesia ‘‘menor’’ e ‘‘funcional’’, serva da música.
Reaproximar poesia, em sua forma literária, e música popular: eis um empreendimento sempre temerário. Via de regra, a poesia de melhor lavor, quando musicada, constitui, ironicamente, uma ‘‘camisa-de-força’’ para a música, comprometendo a naturalidade e a fluência do amálgama. Ninguém faz samba com letra de Camões. Mas... com versos de Elisa Lucinda, até que dá o maior ‘‘pedal’’, como demonstra o cantor, compositor e violonista paulistano Madan em seu segundo CD editado pela gravadora Dabliú Discos.
‘‘A Ópera do Rinoceronte’’ é o nome do disco, que contém 12 faixas com poemas musicados. Além de ‘‘Ashell, Ashell pra todo mundo, Ashell’’, que conta com a participação da poeta Lucinda nos vocais (sua voz: negra, esganiçada, suburbana – a voz de uma Elza Soares desafinada e bêbada), ‘‘Pó’’ (poema de Ademir Assunção que, a exemplo de ‘‘Ashell’’, alude ao preconceito racial: ‘‘homens de negócio/tó/fiquem vocês com este pó//mas eles gritam:/não/é pouco/prendam/o poeta é negro bicha e louco’’) e ‘‘Ode a um Recém-Nascido’’ (versos de José Paulo Paes, poeta e tradutor exemplar, a quem o CD é dedicado, ‘‘in memoriam’’) são as composições melhor resolvidas, na medida em que música não se torna ‘‘refém’’ da letra, tendo uma e outra igual peso.
A mesma sorte não têm os poemas ‘‘Deus’’ (de Arnaldo Antunes), ‘‘Vôo’’ (de Nelson Capucho), ‘‘A Ópera do Rinoceronte’’ (Kléber Albuquerque), ‘‘Mundo Novo’’ (de Paes) e ‘‘Dona Doida’’ (de Adélia Prado). Neles, o amálgama música-verso mostra-se frágil, por vezes forçado, e o resultado propriamente musical não é diferente dessa mistura de bossa nova, neobolerismo e balada pop que conforma boa parte da atual MPB ‘‘de prestígio’’. Mesmo assim, é forçoso reconhecer que ‘‘Deus’’ é um dos melhores poemas já escritos por Arnaldo Antunes (muito superior ao ‘‘trocadilhismo’’ de inspiração concretista que caracteriza a maioria das letras de suas músicas) e a participação de José Paulo Paes, declamando os versos de ‘‘Mundo Novo’’, é um dos acertos do disco.

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