''A Ópera do Rinoceronte'': poesia & canção
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2000
Wilmar Klein De Curitiba 
Em seus primórdios ágrafos , poesia era feita para ser cantada. Nos tempos de Homero, o rapsodo, só se falava e cantava. Da fala/canto ao código da fala a escrita , um longo percurso. A instauração do código instaura também uma cisão: poesia e canto dissociam-se. A poesia adquire foros de literatura. Permanece o canto nos domínios da oralidade. Não isento de poesia, porém distante da poesia que os livros se encarregarão de preservar e mumificar. À canção fruto popular , uma poesia menor e funcional, serva da música.
Reaproximar poesia, em sua forma literária, e música popular: eis um empreendimento sempre temerário. Via de regra, a poesia de melhor lavor, quando musicada, constitui, ironicamente, uma camisa-de-força para a música, comprometendo a naturalidade e a fluência do amálgama. Ninguém faz samba com letra de Camões. Mas... com versos de Elisa Lucinda, até que dá o maior pedal, como demonstra o cantor, compositor e violonista paulistano Madan em seu segundo CD editado pela gravadora Dabliú Discos.
A Ópera do Rinoceronte é o nome do disco, que contém 12 faixas com poemas musicados. Além de Ashell, Ashell pra todo mundo, Ashell, que conta com a participação da poeta Lucinda nos vocais (sua voz: negra, esganiçada, suburbana a voz de uma Elza Soares desafinada e bêbada), Pó (poema de Ademir Assunção que, a exemplo de Ashell, alude ao preconceito racial: homens de negócio/tó/fiquem vocês com este pó//mas eles gritam:/não/é pouco/prendam/o poeta é negro bicha e louco) e Ode a um Recém-Nascido (versos de José Paulo Paes, poeta e tradutor exemplar, a quem o CD é dedicado, in memoriam) são as composições melhor resolvidas, na medida em que música não se torna refém da letra, tendo uma e outra igual peso.
A mesma sorte não têm os poemas Deus (de Arnaldo Antunes), Vôo (de Nelson Capucho), A Ópera do Rinoceronte (Kléber Albuquerque), Mundo Novo (de Paes) e Dona Doida (de Adélia Prado). Neles, o amálgama música-verso mostra-se frágil, por vezes forçado, e o resultado propriamente musical não é diferente dessa mistura de bossa nova, neobolerismo e balada pop que conforma boa parte da atual MPB de prestígio. Mesmo assim, é forçoso reconhecer que Deus é um dos melhores poemas já escritos por Arnaldo Antunes (muito superior ao trocadilhismo de inspiração concretista que caracteriza a maioria das letras de suas músicas) e a participação de José Paulo Paes, declamando os versos de Mundo Novo, é um dos acertos do disco.


