A ópera de José Saramago
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de abril de 2005
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
O italiano Azio Corghi sempre gostou da musicalidade das palavras do escritor José Saramago, a ponto de se inspirar no romance ''Memorial do Convento'' para escrever, em fins dos anos 1980, a ópera ''Blimunda''. A parceria entre o músico e o autor se estreitou com ''La Morte di Lazzaro'' e ''Cruci-Verba'', cantatas que tiveram como fonte o polêmico ''O Evangelho Segundo Jesus Cristo''. A intimidade no trabalho permitiu que Corghi arriscasse um largo passo: e se, juntos, não compusessem uma ópera com ato único, original, para ser apresentada no Teatro Scala, de Milão? Depois de um ano de efervescente criação conjunta, os dois amigos criaram ''Don Giovanni'' ou ''O Dissoluto Absolvido'', cujo texto a Companhia das Letras lançou nesta semana.
Fã ardoroso da clássica ópera composta por Mozart, Saramago entusiasmou-se com a idéia e, a partir do texto mozartiano, criou um novo Don Giovanni, um homem que, ao contrário do que sempre se diz, não é um sedutor mas um permanente seduzido: a simples presença de uma mulher o perturba. Foi o início de uma intensa troca de mensagens, em que o texto criado por Saramago inspirava as partituras de Corghi. O processo é minuciosamente descrito no posfácio de Graziella Seminara, que, como em um DVD, funciona como making of. Leia a seguir, entrevista que Saramago concedeu por e-mail.
Um de seus planos era fazer um ''Don Giovanni'' um tanto borgiano, talvez um pouco kafkiano, mas a idéia não foi concretizada. Por quê? Pareceu, para o senhor, que a estratégia resultaria mais positiva do ponto de vista literário que dramatúrgico?
A resposta está na pergunta. Um Don Giovanni não só borgiano, mas também kafkiano, seria um autêntico quebra-cabeças para o escritor que se arriscasse a tal empresa. Talvez em um romance isso fosse possível, mas seria preciso virar a personagem do avesso e transformá-la em algo que acabaria por ter pouquíssimos pontos comuns com o Don Giovanni tradicional em suas diferentes versões. E não era isso que pretendíamos, Azio Corghi e eu.
Quais outras obras o senhor gostaria de revisitar como fez com Don Giovanni?
Atualmente o meu trabalho está centrado no romance, em todo caso um romance menos interessado em contar histórias que em ser um veículo para a reflexão, como vem acontecendo desde ''Ensaio sobre a Cegueira''. Não tenho projetos para a revisitação de outras obras, mas também é certo que nunca me tinha passado pela cabeça que um dia me atreveria com Don Giovanni...
Em um certo momento na troca de correspondência entre vocês, Azio questiona: ''Estaremos bem seguros de que um Don Giovanni pode 'mudar de pele' definitivamente?'' Assim, qual é a maior dificuldade ao traçar o percurso de um personagem já existente, com um passado já definido?
Ninguém ''muda de pele'' definitivamente, portanto Don Giovanni, o mais volúvel dos homens, não poderia ser exceção. Mas, ao contrário do que a pergunta sugere, Don Giovanni não tem um passado definido. Vem ''mudando de pele'' desde Tirso de Molina e certamente não vai ficar muito tempo como Azio Corghi e eu o vimos. Outras versões virão porque tudo é movimento e mudança.
Por que Don Giovanni não é vigorosamente desmistificado? Seria por ser ele o modelo do pecado e não da virtude?
Ao contrário do que parece pensar-se, o meu propósito não foi tanto desmistificar Don Giovanni como pôr a descoberto a hipocrisia do comportamento das restantes personagens principais, isto é, Comendador, Dona Ana, Don Octávio e Dona Elvira. Todos eles têm sido apresentados como vítimas inocentes do malvado Don Giovanni, e a verdade é que não encontro qualquer tipo de inocência em nenhum deles. O meu texto é bastante claro a esse respeito.
Isso acontece por não ser Don Giovanni, no seu entender, um sedutor, mas um homem permanentemente seduzido?
Don Giovanni é incapaz de ficar indiferente na presença de uma mulher. A ária do catálogo de Leporello é perfeitamente elucidativa a esse respeito. O que sucede é que, sendo constantemente seduzido, é também constantemente sedutor. A dicotomia entre seduzir e ser seduzido é mera aparência. Ninguém seduz se não é seduzido, ninguém é seduzido se não seduz.


