São Paulo, 25 (AE) - A celebração de um centenário, ainda que tardia: a Orquestra Experimental de Repertório, regida por Abel Rocha, apresenta sábado e domingo, no Municipa de São Paulo, a tragédia lírica em um ato, "A Voz Humana", de Francis Poulenc (1899-1963), com texto de Jean Cocteau. Pode chamá-la de ópera de bolso que não é pecado. Afinal, há orquestra, cenário (com direção cênica de Iacov Hillel) e soprano (Celine Imbert) em cena, como em qualquer bom melodrama operístico. Só o tema é surpreendente, pois, em vez das grandes tragédias, toda ação se passa no quarto de uma mulher que, desesperada, pendura-se ao telefone, falando sobre o amante que a abandonou.
Moderno, não? Pois é justamente o que desejava o compositor francês que, em 1959, estreou a ópera a partir do drama de Cocteau, de 1932. Não sem razão, foi ao ouvir "A Sagração da Primavera", de Stravinski, que Poulenc decidiu transformar-se em músico. Só que por outras vias, menos radicais
ainda que drasticamente anti-românticas. Mas sem nunca deixar de lado o melodismo, a expressividade elegante e mundana, característica dos seus colegas franceses de métier. Brincou por bons anos com sonoridades "geométricas", bem ao gosto dos anos loucos e cubistas do entreguerras.
Por isso, uma ópera em que todo o monólogo se desenvolve em torno de um atualíssimo telefone, com um bocado de palavras faladas, envolvidas pela música. Não se engane, porém, com o sprechgesang dos vienenses. Poulenc odiava a "música de quadro negro", intelectualizada de Schoenberg e seus asseclas. Queria música sobre a qual não se precisasse meditar como em um tratado filosófico, mas que atingisse o ouvinte nos seus sentimentos. Os mais elegante, é claro, sem arroubos italianos. E, sempre que possível, com uma dose de senso de humor.
Certo, esse não é o caso de "A Voz Humana" (Poulenc também fez outra ópera, "O Diálogo das Carmelitas", de beleza superlativa e emoção digna de thriller na cena final, em que as religiosas são guilhotinadas: ouvimos cada um dos golpes da máquina da Revolução Francesa). De uma seriedade incômoda para os ouvintes: "Nessa tragédia lírica, toda a obra deve estar mergulhada na mais profunda sensualidade orquestral e é da interpretação da cantora que dependerá a duração das pausas, tão importante nesta partitura", escreveu o compositor, deixando clara o peso da teatralidade de sua miniatura.
E o tamanho da responsabilidade da cantora que, só em cena, precisa manter a histamina geral da platéia em níveis elevados. Papel ideal para Celine Imbert que, aliás, cantou a ópera em 1987, no auditório do Masp (o Municipal estava fechado para reformas), com a mesma orquestra e o mesmo Iacov Hillel. Eis um trio talentoso o bastante para dar humanidade à voz de Poulenc. SERVIÇO -A Voz Humana. Música de Francis Poulenc e texto de Jean Cocteau. Direção artística de Jamil Maluf. Direção-geral de Iacov Hillel. Regente convidado Abel Rocha. Solista: Celine Imbert. Sábado, às 21 horas e domingo, às 17 horas. De R$ 5,00 a R$ 25,00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698

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