Ela ocupa praticamente todos os espaços. Nas casas, nos escritórios, nas lojas, nos carros, nos restaurantes, nos bares, nos consultórios médicos, nos elevadores, nos cinemas, nas igrejas, na escuta telefônica. Mesmo sem que queiramos ouvi-la, sem que a escolhamos, sem que prestemos a mínima atenção nela, a música está em todos os lugares.
Feita para não chamar atenção para si, as experiências com música ambiente, segundo a enciclopédia virtual Wikipédia, remontam ao século XIX, quando o compositor francês Erik Satie, considerado o pai da música ambiente, compôs peças que eram tocadas no intervalo dos concertos, enquanto as pessoas conversavam. O termo em si foi utilizado pela primeira vez na década de 70, por Brian Eno.
Mas será que a música ambiente funciona apenas como fundo musical? Secretária de uma clínica médica, Eliane Cristina Lopes passa o expediente ouvindo música clássica e acredita que ela acalma o paciente que chega agitado ao consultório, além de tornar a espera menos desconfortável. ''Chego ao trabalho e já ligo o som. O doutor diz que o paciente deve ser bem tratado a partir do momento em que entra na clínica'', pondera. A dentista Waenya Fernandez de Carvalho utiliza a música no consultório para relaxar os pacientes que chegam tensos para enfrentar o temido motorzinho. ''Procuro colocar músicas mais tranquilas; um instrumental, MPB. Evito músicas tristes'', conta. Segundo Waenia, poucos pacientes pedem para ela desligar o som.
Nos estabelecimentos comerciais a música deixou de ser um mero som de fundo para se transformar em uma alternativa de mídia direta, objetivando aumentar o tempo de permanência do cliente no local e influenciando na compra do produto. O psicólogo britânico Adrian North, do Grupo de Pesquisa de Psicologia da Música da Universidade de Leicester, constatou que a música pode influenciar a velocidade com a qual as pessoas fazem as coisas (comer mais rápido em um restaurante, comprar de forma mais apressada um produto) e o que vão adquirir. ''Se você tocar, por exemplo, música francesa em um supermercado, as pessoas comprarão vinho francês; toque música alemã e as pessoas comprarão vinho alemão'', exemplificou. De acordo com o estudioso, a música funciona quando o consumidor está em um momento de indecisão.
O Shopping Royal Plaza usa uma estação de rádio, com músicas programadas conforme o horário do dia, o público que se quer atingir, breaks comerciais, vinhetas e jingles de campanha. Uma rádio indoor de Marília (SP) gerencia a programação. ''Até o horário do almoço privilegia-se uma música mais calma, como MPB, lounge. À noite o ritmo é mais agitado, coloca-se até axé porque o movimento cai e os funcionários do shopping precisam de um 'gás' para terminar o expediente. Música é sempre bom e acredito que interfira no desempenho dos vendedores'', opina o gerente de marketing Denison Camargo. Segundo o profissional, o programador da rádio preocupa-se em deixar a música em um volume que não atrapalhe as atividades do shopping e as apresentações que ocorrem na Praça de Alimentação. ''A música ao vivo segura o fluxo de clientes até às 22h30 na primeira semana do mês'', revela.
Muitas lojas têm a sua própria música ambiente. Geralmente os vendedores têm liberdade para trazer os CDs que desejam ouvir durante a jornada de trabalho. ''Gosto de trazer rock para a loja; muitos clientes comentam sobre a trilha sonora. Quando tem música parece que tudo fica mais ágil'', diz a vendedora Juliana Kuchta. ''A música nos ajuda a distrair. O tempo passa mais rápido. Entre os clientes, já percebi que dependendo do estilo de música eles se 'ligam' mais nos artigos esportivos'', afirma Luiz Augusto Coelho. ''Dependendo da música o cliente fica irritado e vai embora. Mas uma canção mais leve ajuda a relaxar; eu até canto junto'', confessa a vendedora Thays Renata Costacurta. Proibida de ouvir música dentro da loja, a vendedora Simone Feitoza critica as longas horas de música ambiente do shopping. ''Fica cansativo. Tem dias que eu nem escuto.''
Os clientes aprovam a música ambiente, desde que utilizada com bom senso. ''Agora mesmo estava em uma loja que tocava um tchitu-tchitu em alto volume. Meu filho pediu para irmos embora porque o som estava muito alto; alertei a vendedora mas ela não deu atenção'', conta o comerciário de Telêmaco Borba Carlos Henrique Barczak. ''Música ambiente é importante; ajuda a distrair, alivia o ambiente'', reflete a atendente Cristiane Gonçalves de Oliveira. ''Qualquer ambiente fica mais agradável com música. Em relação ao que toca nos estabelecimentos comerciais, percebo que há vários anos é o mesmo tipo de música - anos 80. Me agrada'', avalia o microempresário Yuri Pretti.

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