Quem dera ter poderes divinos para ainda que a dor do amor, da perda e irrefutável solidão se torne pranto e poder dizer que, em algum lugar - que em seu caso era a Mangueira - é tão diferente que existe um choro capaz de alegrar a gente. O divino Cartola, que completaria 100 anos hoje, tem esse poder. O maior sambista da história compreendeu as rosas em seus espinhos que brotam, no peito, da esperança da certeza do dever de chorar.
Ainda que num desabafo diga: ''Pois bem sei que não queres voltar para mim'' - é capaz de fazer a gente feliz por temos diante dos ouvidos a fina flor da MPB. Fazer sorrir, quando é para chorar é permissão que só é dada aos poetas. Cartola é dessa legião parca, que em composições como ''Pranto de Poeta'' consegue fazer o mais desiludido dos mortais crer no choro sem lenço, que traz alegria, justamente quando morre algum dessa estirpe.
Felicidade maior é a comemoração do centenário de nascimento de Cartola. Não faltaram tributos ao mestre. Inclusive os lançamentos alusivos, o instrumental ''Chora Cartola'' pela Deckdisc, e ''Viva Cartola!100 Anos'', da Biscoito Fino, que mostra o mestre em várias de suas facetas.
O maior sambista que gravou o primeiro LP em 1974, alguns meses antes de completar 66 anos, conheceu as ladeiras da miséria, sendo redescoberto pelo jornalista Sérgio Porto, que o encontrou lavando carros em uma garagem de Ipanema e trabalhando à noite como vigia de edifícios. Porto levou Cartola para a rádio Mayrinck Veiga e, logo depois o compositor arrumou emprego no jornal ''Diário Carioca''.
O sambista da história, que declarou ''Nunca mais pensei em amor, nunca amei nem fui amado/ se julgas que estou mentindo jurar sou capaz/ Foi simples sonho que passou e nada mais'', em ''Não Quero Mais Amar a Ninguém'', abriu o coração para Dona Zica, a mulher que cultivava um jardim de onde o poeta colheu uma de suas mais belas e conhecidas composições ''As Rosas Não Falam'', que ao contrário da lenda não teve como cenário de criação a Mangueira, mas a casa de Jacarepaguá. A onipotência e onipresença das composições de Cartola, que dobram até os mais céticos na força do amor, têm um quê de onisciência em ''Pranto de Poeta'' ao prever: ''Hei de ter alguém pra chorar por mim''.

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