Se a frase do filme de Christopher Nolan, “O Grande Truque”, realizado há exatos vinte anos, sobre como um mágico “transforma algo aparentemente comum em algo extraordinário", soa tanto como uma declaração de princípios de um artista quanto como uma profissão de fé, é porque realmente ela é isso mesmo. Para Nolan, esse algo extraordinário é o próprio cinema. O amor desse artista pelo cinema e seu compromisso com ele – com o que ele pode fazer, o que ele pode ser e o que deveria ser – percorrem sua filmografia de 13 longas como uma corrente elétrica, iluminando-a, e muitas vezes iluminando você também, espectador.

“A Odisseia”, o famoso poema grego atribuído ao poeta Homero, é um pilar da literatura mundial. É daquelas obras fundamentais e essenciais da cultura universal; para muitos estudiosos, ela contém a semente de todas as histórias já contadas. De fato, seus mais de 12 mil versos de diálogos e ação incessantes e não lineares apresentam deuses, mortais, monstros, eventos estranhos, rituais de hospitalidade e oceanos de sangue, lágrimas e vinho, mesclando aventura, ação, grandiosidade épica, mito, drama e amor, desafiando quem a lê a confrontar temas como heroísmo, camaradagem, hospitalidade, nostalgia, justiça, fidelidade, paternidade e vínculos familiares. A obra inspirou inúmeras adaptações e releituras – inclusive cinematográficas, como o western “Rastros de Ódio”, de John Ford (1956) e “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você ?”, dos irmãos Coen (2000) –, e agora Christopher Nolan, um dos notáveis da atualidade, assumiu o desafio de escrever e dirigir esta adaptação ambiciosa e em grande escala. Ele buscou combinar um espetáculo inédito com uma perspectiva moderna e humanista, visando manter-se fiel ao poema original e, ao mesmo tempo, criar uma obra que ressoasse fortemente com o público contemporâneo.

A influência da “Odisseia” atravessa séculos e chega aos dias de hoje abrangendo a literatura, o cinema, a televisão, as histórias em quadrinhos, a música, a dança. Mesmo aqueles que desconhecem sua existência frequentemente apreciam obras posteriores que beberam nesta fonte e evocam a jornada de Odisseu/Ulisses (Odisseu é o nome original do personagem na mitologia grega, enquanto Ulisses é seu nome em latim, na mitologia romana) de uma forma ou de outra.

Neste momento em exibição no sistema planetário de salas, esta nova adaptação oferece oportunidade única de revisitar o clássico supremo. E como sempre, ao se deparar com um filme, a palavra final cabe ao que aparece na tela — e não a preconceitos ou comparações, por mais divertidos ou levianos que esses exercícios possam ser.

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Transformado em roteiro e imagens por Nolan, “A Odisseia” é uma experiência intensa, imersiva, monumental e visualmente estimulante. Ele criou um filme que faz justiça à grandiosidade de obra tão lendária. Há ambição. Uma imensa ambição. E é de fato algo grandioso. O que Homero concebeu parece um milagre: uma daquelas histórias que sintetizam todas as histórias.

Nolan acredita em milagres: na tela, a obra reafirma a criação seminal e traz ação, drama, fantasia, romance. É um relato de guerra e vingança, mas também uma narrativa que explora as consequências do conflito. É obra politica. E fortemente de mãos dadas com o espectador, mergulha fundo no universo existencial dos protagonistas. É uma tragédia para alguns personagens e uma jornada de amadurecimento para outros; uma exploração dos fundamentos de toda uma civilização e um estudo sobre o verdadeiro significado de "lar", reduto onde Penélope (Anne Hathaway, em estupenda performance) aguarda a volta de Odisseu assediada implacavelmente pelos pretendentes. E, acima de tudo é, como os gregos a definiam, a história por excelência do “nóstos” ("o retorno"). Nolan consegue manter esse equilíbrio ao longo de toda a jornada. E isso também parece um milagre.

CRONOLOGIA NÃO LINEAR

Christopher Nolan é conhecido pela maneira original e algo complexa como constrói suas narrativas. Saltos temporais e cronologia não linear têm sido uma espécie de marca registrada desde “Memento” (2000). Aqui, no entanto, encontramos um de seus filmes mais convencionais, no qual as mudanças temporais são mais fáceis de acompanhar e se alinham à forma como os personagens reconstituem suas histórias. Certos elementos não descritos minuciosamente na “Odisseia” de Homero, surgem na tela expandidos com riqueza de detalhes. Sem se perder nas habituais digressões, o roteiro do próprio diretor abraça a obra original, ao mesmo tempo em que toma liberdades criteriosas para condensar alguns dos eventos narrados por Homero (um bom exemplo disso é a junção das histórias do encontro com os Lotófagos e do cativeiro de Odisseu (Matt Damon) junto à ninfa Calipso (Charlize Theron) valendo-se do elemento comum a ambas: o esquecimento.

O célebre Cavalo de Troia, por exemplo, é apenas mencionado em relatos dentro da “Odisseia”; isso serve como uma desculpa perfeita para incluí-lo no filme, ao mesmo tempo em que amplia significativamente a trama. Como costuma acontecer com adaptações de clássicos, grande parte do interesse reside em ver como os cineastas lidaram com momentos cruciais do texto original. O Cavalo de Troia, o Ciclope, as Sereias — todos esses são elementos que vale a pena revisitar repetidamente em diferentes adaptações. A transposição de Nolan também não decepciona nesse aspecto.

A queda de Troia: cenas impressionantes do filme que não utiliza muitos efeitos especiais , mas efeitos práticos realizados no set
A queda de Troia: cenas impressionantes do filme que não utiliza muitos efeitos especiais , mas efeitos práticos realizados no set | Foto: Universal Pictures/ Divulgação

MENOS EFEITOS VISUAIS

O filme ainda se destaca claramente pelo uso mínimo e discreto de efeitos visuais, especificamente aqueles criados na pós-produção, que hoje em dia costumam ser totalmente digitais, via CGI – Computer-Generated Imagery. Em vez disso, a obra aposta em efeitos especiais práticos, realizados no próprio set, capturando uma fisicalidade tangível que praticamente desapareceu do cinema moderno. Tudo parece incrivelmente real em cada cena – um verdadeiro deleite, especialmente para um filme de fantasia.

Consequentemente, cada momento importante ganha ainda mais impacto. São cenas inesquecíveis, destinadas a se tornarem clássicas; algumas se destacam mais do que outras, com a ação mais intensa sendo reservada para o segundo ato e culminando em um grande final, exatamente como deve ser o clímax de uma grande história.

Matt Damon em "A Odisseia": narrativa atravessa séculos e chega aos dias de hoje abrangendo a literatura, o cinema, a televisão, as histórias em quadrinhos, a música e a dança.
Matt Damon em "A Odisseia": narrativa atravessa séculos e chega aos dias de hoje abrangendo a literatura, o cinema, a televisão, as histórias em quadrinhos, a música e a dança. | Foto: Universal Pictures/ Divulgação

QUALIDADE ARTÍSTICA

A qualidade artística é impecável, como seria de se esperar com um orçamento de 250 milhões de dólares à disposição. O design de Polifemo e o uniforme de Agamenon (líder do exército grego), por exemplo, são exemplos notáveis ​​do trabalho realizado para reimaginar personagens icônicos e elementos da cultura micênica. O mesmo vale para a fotografia do holandês Hoyte van Hoytema – colaborador frequente de Nolan – , que captura a luz e as cores perfeitas para este clássico épico. A escolha do elenco também é certeira, embora conservadores de plantão inevitavelmente levantem objeções quanto à representação de Helena ou ao gênero de algum ator.

Ao contrário de “Troia” (Wolfgang Petersen, 2004), que adapta a outra epopeia homérica, a “Ilíada”, Nolan não rejeita o elemento mítico, mas o integra de forma harmoniosa. Tal supressão é simples no caso da “Ilíada”, em que a subtrama divina pode ser removida sem alterar os acontecimentos do cerco de Troia. Em contrapartida, é impossível narrar a jornada de Odisseu sem personagens como o ciclope Polifemo, as Sereias ou os monstros Cila e Caríbdis. Ainda assim, o filme faz observações realistas pontuais sobre a invasão de Troia, descartando o pretexto de Helena (Lupita Nyong’o) como "fake news" e expondo as motivações geopolíticas e comerciais por trás da guerra. Trata-se de comentário estritamente histórico, mas que é impossível não enxergar com clareza no contexto atual, em que conflitos armados voltaram a ocupar o centro das atenções.

Matt Damon (Odisseu) e Zendaya, que interpreta a deusa Atena no filme que reúne ação, drama, fantasia e romance
Matt Damon (Odisseu) e Zendaya, que interpreta a deusa Atena no filme que reúne ação, drama, fantasia e romance | Foto: Universal Pictures/ Divulgação

A FIGURA DO HERÓI

Se consultarmos a definição de "herói" no dicionário, Odisseu/Ulisses se encaixa perfeitamente nela. O protagonista faz sacrifícios por uma causa nobre, demonstra virtude, realiza feitos extraordinários e age com coragem e ousadia. No entanto, se examinarmos os detalhes e nos aprofundarmos naquilo que Homero criou há cerca de 2.700 anos a.C, nos deparamos também com o que a autora britânica Emily Wilson descreveu como "um homem complicado", em sua tradução para o inglês do original publicada em 2017. A tendência é focar na superfície – suas virtudes célebres –, negligenciando suas complexidades mais humanas que, na prática, o transformam em uma espécie de anti-herói. Conforme registrado quando a tradição oral de “A Odisseia” foi transposta para o papel, Odisseu é “polytropos” (alguém de "muitas voltas e reviravoltas"). O protagonista da epopeia encarna traços diversos e por vezes contraditórios, e é aí que reside a riqueza do personagem; contudo, em sua adaptação, Christopher Nolan buscou um líder mais ao estilo do cinema de Hollywood, rude, fechado, mais próximo de um personagem de filmes de super-heróis. Nolan então suaviza a figura de Odisseu, resultando em um herói mais carrancudo do que afiado.

Embora o cineasta ofereça vislumbres de suas facetas mais sombrias e de fato mais humanas, ele está empenhado em garantir que o espectador sempre goste dele.

“A Odisseia” alcança afinal algo muito raro: conciliar o cinema de autor com o cinema comercial, envolto discretamente no charme da velha Hollywood.

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