Thomas Pynchon é um sujeito esquisito. É o tipo de escritor que não concede entrevistas, não se deixa fotografar, não aparece em público. Possui uma verdadeira obsessão pela privacidade. A única informação conhecida sobre sua vida, é que nasceu em Long Island em 1937. Em sua única foto existente, desenterrada por detetives curiosos, aparece em seus jovens 18 anos. Esta invisibilidade desperta montanhas de suposições. Alguns chegam a afirmar que Pynchon não existe, sendo apenas o pseudônimo de algum grande gênio literário.
Thomas Pynchon compartilha esta obsessão da não exposição pública com outro escritor norte-americano, J. D. Salinger. A diferença é que Salinger abandonou definitivamente a literatura, Pynchon não. Embora não tenha uma vasta produção, ainda não pendurou as canetas. Se Pynchon é um sujeito esquisito, suas obras seguem o mesmo caminho.
Com uma linguagem complexa, desordenada e obscura, representa com originalidade o tempo em que vive, o paranóico caos contemporâneo. ‘‘O Arco-íris da Gravidade’’ (Gravity’s Rainbow), seu mais cultuado romance, acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 1973, a história se passa no final da Segunda Guerra Mundial misturando uma infinidade de personagens, centenas, em malucas e paranóicas conspirações onde nada se elucida.
Tudo começa com o bombardeio de Londres pelas forças alemãs através de sofisticados foguetes V2. Os alvos escolhidos parecem caóticos, desprovidos de interesses táticos, até que militares britânicos descobrem que os locais da explosões coincidem com os locais onde o tenente norte-americano Tyrone Slothrop, protagonista do romance, realiza suas fantasias sexuais.
Com o poder de prever o local exato onde os V2 poderão explodir, Slothrop cai dentro de uma conspiração internacional recheada de delírio e paranóia. Tudo se explica pelo fato de que Slothrop ter sido condicionado a estimular-se sexualmente na presença de um produto químico chamado Imipolex G - uma espécie de borracha maleável que possui a propriedade de se tornar rígida.
O responsável por este condicionamento é Dr. Jamf, um cientista pavloviano que realizou experimentos com Slothrop durante sua infância. Durante a guerra, o cientista maluco passa a trabalhar nos laboratórios químicos da indústria bélica alemã, utilizando o Imipolex G na fabricação dos foguetes V2.
Viajando por vários países e situações com espiões em cada esquina, Slothrop passa a ser uma das peças no projeto de construção de uma arma mais potente, o foguete 00000 (V4) capaz de destruir cidades inteiras. Tudo temperado a elementos da contracultura e signos da cultura de massa.
A história de Slothrop é uma pequena narrativa dentro do extenso ‘‘O Arco-íris da Gravidade’’. Grande parte do texto são narrativas difusas das centenas de personagens. Pensamentos, sonhos, delírios, viagens, paranóias, canções, libidos grotescas, diálogos, projeções, psiquês atormentadas, relatos do passado, descrições presentes, imagens futuras e uma infinidade de narrativas paralelas e simultâneas. Uma escritura capaz de deixar o leitor totalmente sem ter onde pisar, sem chão, sem terra.
Thomas Pynchon escreve com a atenção voltada para a informação estética. Os ornamentos que utiliza são todos aqueles que o mundo contemporâneo foi capaz de fabricar, ou falsificar. A escritura de ‘‘O Arco-íris da Gravidade’’ não está interessada em colocar um brinco na orelha, mas exatamente o contrário, colocar uma orelha no brinco. A diferença entre uma coisa e outra possui mais que sete cores. Os outros romances do escritor publicados no Brasil seguem o mesmo caminho, ‘‘V.’’ (Paz e Terra, 1988), ‘‘Vineland’’ (Companhia das Letras, 1991) e ‘‘O Leilão do Lote 49’’ (Companhia das Letras, 1993).
Para se ter uma idéia dos nós narrativos que Pynchon utiliza, basta citar um fragmentos aleatório: ‘‘Cegonhas dormem entre cavalos de duas ou três patas, as engrenagens enferrujadas, o teto rachado do carrossel, suas cabeças estremecendo com as correntes de ar e a aridez da África, delicadas cobras pretas trinta metros abaixo, serpenteando ao sol por entre as pedras e declives do terreno. Enormes cristais de sal, já cinzentos, se espalham pelas fendas da calçada, pelas rugas do cachorro com olhos redondos feito pires em frente da prefeitura, a barba do bode da ponte, a boca do duende embaixo. A porca Frieda procura um lugar novo onde aninhar-se e cochilar até passar o vento. A bruxa de gesso, o arame já invisível na altura dos seios e das cadeiras, debruça-se sobre o forno, o gesto de cutucar um João corroído eternamente petrificado. Os olhos de Maria estão para sempre escancarados, sem jamais piscar, cílios pesados de sal estremecendo ao sabor das hordas de vento que vêm do mar.’’
O escritor também mergulha em sentimentos embriagados de lucidez. Na última parte do romance apresenta a morte aos personagens envolvidos pelas aspirações da vida: ‘‘Lembro que você costumava me fazer adormecer cochichando histórias sobre o tempo em que viveríamos na Lua... você já não é mais capaz disso? Você está muito mais velho. Você consegue sentir em seu corpo o quanto eu o infectei com minha morte? Era inevitável: quando chega uma carta hora, creio que é inevitável para todos nós. Os pais são os portadores do vírus da Morte, e os filhos são os infectados... e, para que a infecção seja mais certa, a Morte, engenhosa, tornou o pais e o filho belos uma para o outro, tal como a vida criou macho e fêmea...’’
Em suas quase 800 páginas em letra miúda, ‘‘O Arco-íris da Gravidade’’ pode ser considerado tanto um romance chato e entediante como uma das maiores ficções da segunda metade do século. Se por um lado não é o tipo de livro que se dê de presente à mãe ou à namorada, por outro é um admirável trabalho de linguagem com seu devido lugar na história da literatura. Cada leitor é uma prova dos nove.
• O Arco-íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, Editora Companhia das Letras, tradução da Paulo Henriques Britto, 789 páginas, R$ 44,00/Livraria Rosa do Povo - fone (043)3215691.

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